sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O NOME DIVINO NAS ESCRITURAS

 

O NOME DIVINO NAS ESCRITURAS

YHWH, sua pronúncia e sua revelação bíblica

Cleriston Bezerra


Introdução

Poucos temas da linguagem bíblica despertam tanta curiosidade quanto o Nome Divino representado pelas quatro consoantes hebraicas יהוה. Ao longo dos séculos, diferentes tradições de leitura, transliterações e reconstruções procuraram explicar como esse nome teria sido pronunciado nos períodos bíblicos. A questão, porém, exige distinguir cuidadosamente o que o texto preservou, o que pertence à tradição de leitura e o que resulta de reconstrução filológica posterior.

A tese central deste artigo é simples: os massoretas não acrescentaram sinais vocálicos ao Tetragrama com a intenção de ensinar as pronúncias modernas “Jeová” ou “Yahweh”. Eles trabalhavam dentro de uma tradição judaica na qual יהוה era escrito, mas normalmente lido por uma forma substitutiva, sobretudo Adonai. A reconstrução Yahweh possui argumentos filológicos próprios e é predominante na pesquisa moderna, mas isso não equivale a possuir uma tradição fonética contínua e absolutamente demonstrável desde os períodos bíblicos mais antigos.

O estudo também procura evitar dois extremos: negar o valor da pesquisa filológica e, no sentido oposto, transformar uma reconstrução histórica em dogma religioso ou requisito de salvação. O objetivo é examinar o texto hebraico, a tradição massorética, a história das vocalizações, as escolhas das traduções e, finalmente, a maneira como o Novo Testamento desenvolve a teologia do Nome e apresenta Jesus Cristo como Senhor.

1. A escrita preservada do Nome Divino: יהוה — YHWH

O Nome Divino aparece no texto hebraico por meio de quatro consoantes: יהוה. Por possuir quatro letras, é tradicionalmente chamado Tetragrama, do grego “quatro letras”. Na transliteração acadêmica corrente, essas consoantes são representadas como YHWH.

As letras hebraicas são י (yod), ה (he), ו (waw) e ה (he). O hebraico é escrito da direita para a esquerda, enquanto a transliteração latina é apresentada da esquerda para a direita. O dado textual seguro, portanto, é a sequência consonantal YHWH. A dificuldade histórica está na recuperação das vogais e da realização fonética antiga.

A primeira ocorrência do Tetragrama no texto bíblico encontra-se em Gênesis 2:4. Na Biblia Hebraica Stuttgartensia (BHS), baseada no Códice de Leningrado, יהוה (YHWH) ocorre 6.828 vezes. Esse número também é registrado em trabalhos acadêmicos de frequência lexical do hebraico bíblico. Outras obras podem apresentar pequenas diferenças de contagem conforme a edição textual e os critérios empregados; por isso, neste artigo, 6.828 refere-se especificamente à tradição textual representada pela BHS.

2. O hebraico antigo e o problema das vogais

A escrita hebraica antiga era fundamentalmente consonantal. O leitor dependia do conhecimento da língua e da tradição oral para fornecer a vocalização durante a leitura. Séculos mais tarde, estudiosos judeus desenvolveram sistemas de sinais vocálicos para preservar a tradição de leitura do texto bíblico.

Esse dado é decisivo para o Tetragrama: possuir as quatro consoantes não significa automaticamente possuir, no próprio texto consonantal antigo, todas as informações necessárias para reconstruir com absoluta certeza sua pronúncia em cada período histórico.

3. A tradição judaica de reverência ao Tetragrama

Em determinado estágio da tradição judaica, consolidou-se a prática de evitar a pronúncia ordinária de יהוה. Durante a leitura das Escrituras, empregava-se sobretudo אֲדֹנָי (Adonai), “Senhor”. A prática é anterior aos massoretas e fornece o contexto indispensável para compreender a vocalização posterior do texto.

אֲדֹנָי (Adonai) — “Senhor / meu Senhor”. 

Essa substituição não significa que Adonai e YHWH sejam a mesma palavra. YHWH permanece aquilo que está escrito; Adonai funciona, nesse contexto, como aquilo que é lido. Essa distinção entre escrita e leitura é central para o restante da investigação.

4. Quem foram os massoretas e o que fizeram?

Os massoretas foram estudiosos judeus que, durante a Idade Média, transmitiram e anotaram cuidadosamente o texto hebraico das Escrituras. Entre suas contribuições estão sistemas de vocalização, acentuação e notas destinadas a preservar a tradição textual e de leitura.

Quando o Tetragrama aparecia, os sinais associados a ele deveriam ser compreendidos dentro da prática tradicional de leitura substitutiva. Em contextos comuns, a leitura era Adonai; quando Adonai já aparecia junto ao Tetragrama, podia-se ler Elohim para evitar a repetição “Adonai Adonai”. Esse comportamento é um forte indício de que os sinais não funcionavam simplesmente como registro da pronúncia original do Nome.

5. Como surgiu a forma Jehovah/Jeová?

A forma Jehovah, da qual deriva o português Jeová, desenvolveu-se na tradição cristã medieval e moderna quando leitores interpretaram conjuntamente as consoantes do Tetragrama e sinais vocálicos associados à tradição massorética de leitura. Não é historicamente preciso atribuir sua criação a uma única pessoa. A forma latina Iehoua é documentada em autores cristãos medievais anteriores a Petrus Galatinus; no século XVI, Galatinus contribuiu para a difusão da forma. Portanto, é mais correto falar em desenvolvimento histórico de uma vocalização híbrida do que em uma invenção isolada por determinado estudioso.

Por isso, a afirmação mais cuidadosa não é “um estudioso inventou Jeová”, mas que Jehovah/Jeová é uma forma historicamente desenvolvida a partir da leitura combinada das consoantes de YHWH com sinais vocálicos relacionados à tradição substitutiva. Ela se consolidou em diversas línguas, mas não constitui uma pronúncia transmitida ininterruptamente desde Moisés.

6. Yahweh/Javé: reconstrução filológica, não simples combinação massorética

É importante não colocar Yahweh/Javé e Jehovah/Jeová exatamente na mesma categoria histórica. Yahweh é uma reconstrução filológica sustentada por diferentes tipos de evidência: transcrições antigas, formas abreviadas do Nome, nomes teofóricos, comparação linguística e estudos sobre a morfologia hebraica.

Por essa razão, Yahweh tornou-se a reconstrução predominante em grande parte da pesquisa acadêmica moderna. Reconhecer isso não obriga, porém, a afirmar que possuímos uma gravação fonética do período mosaico. A formulação academicamente responsável é que Yahweh possui forte sustentação como reconstrução provável, mas probabilidade filológica não é idêntica a certeza fonética absoluta.

7. As numerosas tentativas históricas de vocalizar YHWH

A história da interpretação do Tetragrama mostra que sua vocalização não chegou à modernidade por uma tradição oral única, contínua e incontestável. Diferentes autores registraram ou propuseram formas como Iao, Iaoue/Iabe, Jahve, Javoh, Jehovah e outras. A diversidade histórica demonstra que estudiosos estavam tentando compreender ou reconstruir a pronúncia.

Nos séculos XVI e XVII, a pronúncia do Tetragrama tornou-se objeto de intenso debate entre hebraístas cristãos. Johannes Drusius contestou a leitura Jehovah; Louis Cappel também participou da discussão filológica; e, no início do século XVIII, o neerlandês Adriaan Reland reuniu estudos sobre a verdadeira pronúncia do Nome. Jean Le Clerc, erudito nascido em Genebra e atuante nos Países Baixos, igualmente aparece na história dessas discussões. Assim, não é historicamente correto atribuir as diferentes propostas de vocalização a “um francês” ou a um único autor: elas surgiram em debates internacionais, ao longo de vários séculos.

Da mesma maneira, a diversidade das propostas não significa que todas tenham o mesmo peso. A pesquisa filológica permite avaliar evidências e estabelecer graus de probabilidade. O ponto central é que as consoantes foram preservadas, enquanto a vocalização antiga passou a depender de investigação e reconstrução.

8. Dos massoretas ao século XXI: recuperamos a pronúncia exata?

A resposta exige distinguir reconstrução histórica de demonstração fonética absoluta. O texto preserva יהוה — YHWH. A tradição judaica passou a empregar principalmente Adonai na leitura litúrgica do Tetragrama, e os massoretas trabalharam dentro dessa tradição. A pesquisa moderna reúne transcrições antigas, nomes teofóricos, formas abreviadas e comparação semítica para reconstruir a vocalização mais provável.

Yahweh possui forte apoio acadêmico e é a reconstrução predominante entre muitos especialistas. Ainda assim, não dispomos de uma tradição fonética contínua e incontroversa que atravesse todos os períodos e permita reproduzir, sem qualquer margem de reconstrução, cada detalhe da pronúncia empregada nos tempos bíblicos mais antigos. Portanto, não é correto dizer que a pesquisa nada sabe sobre a vocalização; mas também é metodologicamente excessivo apresentar uma reconstrução moderna como certeza fonética absoluta.

9. Por que muitas traduções apresentam “SENHOR” em letras maiúsculas?

Em muitas Bíblias, SENHOR em maiúsculas ou versaletes é uma convenção editorial que sinaliza ao leitor que o texto hebraico contém יהוה — YHWH. Já “Senhor”, sem essa convenção, pode representar Adonai ou outros termos, conforme o contexto.

Assim, traduzir YHWH por SENHOR não significa necessariamente esconder o Nome Divino. Frequentemente, as próprias maiúsculas existem para indicar sua presença no original. A convenção preserva também a antiga tradição de leitura por “Senhor”.

A tradição grega tornou κύριος (kýrios), “Senhor”, uma forma central de representar o título divino. A história manuscrita da Septuaginta é complexa, pois testemunhos antigos também preservam formas do Nome em caracteres hebraicos; contudo, Kyrios tornou-se predominante na tradição cristã grega.

10. Isaías 40:3: o caminho de YHWH preparado para Jesus Cristo

“Uma voz clama: “No deserto preparem o caminho para o SENHOR; façam no deserto um caminho reto para o nosso Deus.””
Isaías 40:3 — NVI

No hebraico de Isaías 40:3, SENHOR corresponde ao Tetragrama יהוה. O texto anuncia a preparação do caminho de YHWH. Os quatro Evangelhos relacionam essa profecia à missão de João Batista, e aquele para quem João prepara o caminho na narrativa é Jesus Cristo (Mt 3:3; Mc 1:3; Lc 3:4; Jo 1:23).

A conexão não significa que Jesus seja a mesma pessoa que o Pai. Os Evangelhos distinguem Pai e Filho. A importância cristológica está em uma passagem referente a YHWH ser utilizada para interpretar a chegada de Jesus. Isso integra Jesus de maneira extraordinária à identidade e à ação divinas apresentadas pelas Escrituras de Israel.

11. Joel 2:32 e Romanos 10:9–14: invocar YHWH e confessar Jesus como Senhor

“Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo.”
Romanos 10:9 — NVI

Paulo inicia a seção com a confissão de Jesus como Senhor e, ao mesmo tempo, distingue Jesus de Deus, que o ressuscitou. Nos versículos seguintes, fala do “mesmo Senhor”, daqueles que o invocam e culmina citando Joel 2:32: “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. No hebraico de Joel, o referente é יהוה — YHWH.

γάρ (gár) — “pois, porque, com efeito”.

Entre Romanos 10:10–13, Paulo emprega γάρ repetidamente para ligar as proposições. A conjunção introduz explicação ou fundamento e ajuda a perceber que o apóstolo não está reunindo frases independentes: ele constrói uma cadeia argumentativa que parte da confissão “Jesus é Senhor” e chega à citação de Joel.

κύριος (kýrios) — “Senhor”.

O encadeamento de κύριος, dos pronomes e do verbo “invocar” favorece a leitura de Jesus como referente contextual em Romanos 10:13. O versículo 14 continua a sequência: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram?”. Não há evidência manuscrita grega existente que estabeleça o Tetragrama como leitura original de Romanos 10:13; propostas de restauração permanecem hipóteses textuais, não leituras documentadas pelos manuscritos gregos preservados.

12. O nome de Jesus e a salvação no Novo Testamento

“Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos.”
Atos 4:12 — NVI

Em Atos 4, o contexto identifica explicitamente Jesus Cristo de Nazaré como aquele em cujo nome o milagre foi realizado e em cujo nome a salvação é proclamada. O conceito bíblico de “nome” não se reduz à fonética: envolve a identidade, autoridade e pessoa representada pelo nome.

σωτηρία (sōtēría) — “salvação, libertação”.

ὄνομα (ónoma) — “nome”.

“Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua casa.”
Atos 16:31 — NVI

João 20:31 relaciona fé em Jesus e vida “em seu nome”. Filipenses 2:9–11 declara que Jesus recebeu “o nome que está acima de todo nome” e que será confessado como Senhor. O pano de fundo de Isaías 45, onde todo joelho se dobra diante de YHWH, torna essa linguagem especialmente significativa para a cristologia do Novo Testamento.

13. O que significa realmente “santificar o nome de Deus”?

“Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome.”
Mateus 6:9 — NVI

ἁγιάζω (hagiázō) — “santificar, tratar como santo, consagrar”.

Santificar o Nome não significa tornar Deus mais santo; significa reconhecê-lo e tratá-lo como santo. Ezequiel 36 mostra que o Nome podia ser profanado pela conduta do povo, o que demonstra que “nome” envolve reputação, identidade e honra, não apenas pronúncia.

“Eu revelei teu nome àqueles que do mundo me deste.”
João 17:6 — NVI

Em João 17, revelar o nome do Pai não pode ser reduzido a ensinar uma sequência de vogais. Jesus declara que tornou o Pai conhecido e que continuaria a fazê-lo (Jo 17:26). A revelação do Nome envolve a revelação da identidade, do caráter, da vontade e da obra do próprio Deus.

Por isso, alguém poderia teoricamente conhecer uma vocalização antiga e ainda não conhecer verdadeiramente o Deus que ela identifica. Biblicamente, conhecer o Nome significa conhecer, honrar e confiar naquele que o Nome representa.

14. O que podemos afirmar com segurança — e o que não devemos transformar em dogma

Ao final da investigação, algumas distinções podem ser estabelecidas com segurança. A grafia consonantal יהוה — YHWH foi preservada. Desenvolveu-se uma tradição judaica de leitura substitutiva, sobretudo por Adonai. Os massoretas registraram a tradição de leitura do texto e seus sinais associados ao Tetragrama não devem ser confundidos automaticamente com a vocalização original dos períodos bíblicos.

Jehovah/Jeová é uma forma historicamente desenvolvida e consolidada em várias línguas, mas não uma pronúncia transmitida ininterruptamente desde Moisés. Yahweh/Javé possui situação diferente: é uma reconstrução filológica fortemente sustentada e predominante na pesquisa moderna. Ainda assim, reconstrução provável não equivale a demonstração fonética absoluta.

Também não devemos tratar todas as propostas como igualmente prováveis. A filologia avalia transcrições, morfologia, nomes teofóricos, formas abreviadas e comparação linguística. A cautela acadêmica não exige relativismo; exige apenas que o grau de certeza da afirmação corresponda ao grau de evidência.

Por fim, nenhuma reconstrução moderna deve ser elevada à condição de requisito de salvação sem fundamentação bíblica explícita. O Novo Testamento concentra a proclamação salvadora na fé em Deus e em Jesus Cristo, o Senhor, e utiliza textos veterotestamentários relacionados a YHWH dentro de sua cristologia.

Conclusão Geral

A investigação sobre o Nome Divino exige reverência e precisão. As Escrituras Hebraicas preservaram as quatro consoantes יהוה — YHWH. O que não chegou até nós da mesma maneira foi uma tradição fonética contínua e incontroversa capaz de demonstrar, sem margem de reconstrução, exatamente como o Nome era vocalizado nos períodos bíblicos mais antigos.

A tradição judaica passou a evitar sua pronúncia ordinária e a utilizar sobretudo Adonai. Os massoretas trabalharam dentro dessa tradição. Por isso, a forma Jehovah/Jeová não deve ser apresentada como se os sinais massoréticos tivessem sido colocados para ensinar a pronúncia original. Ao mesmo tempo, Yahweh/Javé deve ser tratada com justiça acadêmica: possui evidências filológicas importantes e é a reconstrução predominante, embora continue sendo uma reconstrução histórica.

A questão bíblica, porém, ultrapassa a fonética. Jesus ensinou: “Santificado seja o teu nome” e declarou ter revelado o nome do Pai. Conhecer o Nome é conhecer aquele que o Nome representa — sua identidade, santidade, autoridade, caráter e obra.

O Novo Testamento aprofunda essa revelação ao aplicar a Jesus textos das Escrituras de Israel relacionados a YHWH. Isaías 40:3 anuncia o caminho de YHWH, e os Evangelhos apresentam João Batista preparando o caminho de Jesus. Joel 2:32 promete salvação a quem invocar YHWH, e Paulo cita essa passagem no clímax de uma argumentação iniciada com “Jesus é Senhor”. Isaías 45 fala do joelho que se dobra diante de YHWH, e Filipenses 2 emprega essa linguagem na exaltação de Jesus Cristo.

Isso não confunde o Pai com o Filho. O Novo Testamento mantém sua distinção pessoal e, ao mesmo tempo, atribui a Jesus títulos, prerrogativas e textos ligados à identidade divina. A proclamação apostólica coloca a salvação na fé em Jesus Cristo, o Senhor, não na capacidade de reconstruir uma vocalização antiga. 

Portanto, se perguntarmos qual forma do Nome Divino foi preservada no texto hebraico, a resposta é clara: יהוה — YHWH. Se perguntarmos se Jeová é comprovadamente a pronúncia original preservada pelos massoretas, a resposta é não. Se perguntarmos se Yahweh possui fundamento acadêmico, a resposta é sim, como reconstrução filológica fortemente sustentada. Mas não possuímos o mesmo grau de evidência para afirmar uma reprodução fonética absolutamente incontestável dos períodos bíblicos mais antigos.

A revelação é maior do que a reconstrução. Podemos estudar as quatro consoantes, sua história e as propostas de vocalização; porém, o centro da revelação bíblica é conhecer o próprio Deus. E, segundo o testemunho do Novo Testamento, o Filho é aquele que torna o Pai conhecido. Assim, a investigação termina na confissão apostólica: Jesus Cristo é Senhor — e nele as Escrituras proclamam salvação, vida e esperança.

Nota de revisão acadêmica: a contagem de 6.828 ocorrências de יהוה foi mantida com referência explícita à BHS; a seção histórica sobre Jehovah/Jeová foi qualificada para não atribuir sua origem a um único autor; e a reconstrução Yahweh foi distinguida da forma Jehovah/Jeová, reconhecendo-se seu forte apoio filológico sem transformá-la em certeza fonética absoluta.

Referências Bibliográficas

BÍBLIA. Nova Versão Internacional (NVI). Texto bíblico utilizado nas citações em português.

BAUCKHAM, Richard. Jesus and the God of Israel: God Crucified and Other Studies on the New Testament’s Christology of Divine Identity. Grand Rapids: Eerdmans, 2008.

BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. Oxford: Clarendon Press, 1907.

ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.

FOX, Everett. The Five Books of Moses: A New Translation with Introductions, Commentary, and Notes. New York: Schocken Books, 1995.

GESENIUS, Wilhelm. Gesenius’ Hebrew Grammar. 2nd English ed., rev. A. E. Cowley. Oxford: Clarendon Press, 1910.

JOÜON, Paul; MURAOKA, Takamitsu. A Grammar of Biblical Hebrew. 2nd rev. ed. Rome: Gregorian & Biblical Press, 2006.

KITTEL, Rudolf (ed.). Biblia Hebraica. Stuttgart: Württembergische Bibelanstalt, edições críticas anteriores à BHS.

RELAND, Adriaan. Decas exercitationum philologicarum de vera pronuntiatione nominis Jehova. Utrecht, 1707. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A OBRA DA CRIAÇÃO, A QUEDA, A REDENÇÃO E A DECISÃO HUMANA

 

Uma análise bíblico-teológica da criação, da origem do pecado e da obra redentora de Cristo

“Quem subiu aos céus e desceu? Quem ajuntou nas mãos os ventos? Quem embrulhou as águas em sua capa? Quem fixou todos os limites da terra? Qual é o seu nome, e o nome do seu filho? Conte-me, se você sabe!”

Provérbios 30:4 — NVI

INTRODUÇÃO

De onde veio o universo? Quem criou o ser humano? Qual é o propósito da nossa existência? Se Deus é bom e tudo aquilo que Ele criou era “muito bom” (Gn 1:31), como o pecado, o sofrimento e a morte entraram no mundo? E, diante da realidade do pecado, qual foi a resposta de Deus para restaurar a humanidade?

Essas perguntas atravessam a história do pensamento humano e alcançam algumas das questões fundamentais da teologia bíblica. As Escrituras não apresentam a existência como produto de um acontecimento desprovido de propósito, mas revelam um Deus pessoal, eterno, soberano e inteligente, de cuja vontade procede toda a realidade criada.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”

Gênesis 1:1 — ARA

Essa afirmação estabelece o fundamento da cosmovisão bíblica: Deus existe antes da criação, distingue-se dela e é a causa última de sua existência. O universo não é Deus e tampouco existe independentemente dele. Tudo aquilo que veio à existência depende do poder e da vontade do Criador.

O propósito deste estudo é percorrer a grande linha teológica apresentada pelas Escrituras: criação, propósito humano, entrada do pecado, queda, promessa, redenção em Yeshua Hamashia (Jesus Cristo), resposta humana ao Evangelho e restauração final.

Não estamos, portanto, investigando apenas como a história começou. Procuramos compreender quem é o Criador, quem somos diante dele, o que aconteceu com a humanidade e aquilo que Deus realizou para reconciliar consigo o homem caído.

I — DEUS COMO CRIADOR DO UNIVERSO E DA VIDA

A questão acerca da origem do universo tem ocupado filósofos, teólogos e cientistas ao longo da história. Na época moderna, diferentes modelos científicos foram desenvolvidos para investigar aspectos relacionados à origem e à história do cosmos, da Terra e da vida.

É importante distinguir assuntos que algumas vezes são apresentados como se constituíssem uma única teoria.

O modelo cosmológico do Big Bang procura explicar o desenvolvimento e a expansão do universo a partir de um estado inicial extremamente quente e denso. A evolução biológica, por sua vez, procura explicar a diversificação dos organismos ao longo das gerações. Já os estudos acerca da origem da vida investigam outra questão: como teriam surgido os primeiros sistemas vivos.

São assuntos relacionados ao estudo das origens, mas não constituem uma única teoria.

Também cabe corrigir uma informação da redação anterior deste artigo: Charles Darwin publicou A Origem das Espécies em 1859, e não em 1959. A precisão histórica é indispensável quando se pretende realizar uma análise séria.

A revelação bíblica, entretanto, responde a uma questão ainda mais fundamental: Qual é a causa última da existência do universo?

“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”

Gênesis 1:1 — ARA

Deus não aparece como parte do universo nem como alguém que surgiu juntamente com ele. Antes que existissem céus, Terra ou humanidade, Deus já existia.

“Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles.”

Salmos 33:6 — ARA

A criação, portanto, não é apresentada nas Escrituras como produto de uma realidade autônoma e independente de Deus. Ela existe porque o Criador soberanamente quis que existisse.

A Trindade na obra da criação

As Escrituras revelam ainda algo extraordinário: a obra criadora possui uma dimensão trinitária.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.”

Gênesis 1:1–2 — ARA

O Novo Testamento revela também a participação do Filho.

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.”

João 1:1–3 — NVI

Essa passagem possui enorme importância cristológica. João não coloca Yeshua entre as coisas criadas. Pelo contrário, estabelece uma distinção entre aquele que é a Palavra e todas as coisas que vieram à existência por intermédio dele.

Paulo confirma essa verdade em Colossenses 1:16, afirmando que todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e para Ele.

Portanto, quando examinamos conjuntamente o testemunho das Escrituras, encontramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo envolvidos na obra criadora. O universo não existe independentemente de Deus. Sua origem, sustentação e finalidade encontram-se no Criador.

Os seis dias da criação

·         Primeiro dia: Deus cria a luz e estabelece a separação entre luz e trevas (Gn 1:3–5).

·         Segundo dia: Deus estabelece o firmamento e separa as águas (Gn 1:6–8).

·         Terceiro dia: Deus faz aparecer a porção seca, estabelece os mares e ordena que a terra produza vegetação segundo suas espécies (Gn 1:9–13).

·         Quarto dia: Deus estabelece os luminares relacionados ao governo do dia e da noite e à marcação dos tempos, dias e anos (Gn 1:14–19).

·         Quinto dia: Deus cria os seres que povoam as águas e as aves (Gn 1:20–23).

·         Sexto dia: Deus cria os animais terrestres e, como ponto culminante da criação visível, cria o homem e a mulher à sua imagem (Gn 1:24–31).

Ao longo da narrativa aparece repetidamente a fórmula “houve tarde e manhã”, acompanhando a sucessão dos dias.

“Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou.”

Êxodo 20:11 — NVI

O próprio mandamento estabelece uma correspondência entre os seis dias da obra criadora e os seis dias de trabalho do homem, seguidos pelo sétimo dia.

Yôm: dias normais ou longas eras?

A palavra hebraica יוֹם (yôm), traduzida como “dia”, não possui obrigatoriamente o mesmo sentido em todas as suas ocorrências. Dependendo do contexto, pode designar o período de luz, um dia normal ou, em determinadas construções, um período mais abrangente.

Portanto, uma defesa responsável dos dias da criação não deve depender da afirmação simplista de que yôm sempre significa exatamente vinte e quatro horas. A verdadeira questão exegética é: Qual sentido o contexto de Gênesis 1 favorece?

No relato encontramos uma sequência de dias numerados, acompanhados repetidamente pelas expressões relacionadas à tarde e manhã. Além disso, Êxodo 20:8–11 relaciona diretamente a semana humana de trabalho e descanso à semana da criação.

Por essas razões, dentro da interpretação defendida neste estudo, entendemos que o contexto favorece a compreensão dos seis dias como dias reais e sucessivos da obra criadora de Deus.

“Um dia para Deus é como mil anos”

“Para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia.”

2 Pedro 3:8 — NVI

Entretanto, utilizar esse versículo como uma fórmula matemática para converter os dias de Gênesis em milhares, milhões ou bilhões de anos enfrenta um sério problema contextual. Pedro não está interpretando Gênesis 1. O contexto de 2 Pedro 3 trata da aparente demora no cumprimento da promessa divina.

Observe ainda a construção: “um dia é como mil anos” e “mil anos como um dia”. Trata-se de uma comparação, não de uma fórmula cronológica.

1 dia = 1.000 anos

6 dias = 6.000 anos

Mesmo se alguém, contrariando o contexto, aplicasse a primeira equivalência literalmente, o resultado ainda não produziria milhões ou bilhões de anos. Portanto, 2 Pedro 3:8 não fornece fundamento exegético para transformar automaticamente os seis dias de Gênesis em eras geológicas.

É importante ainda evitar atribuir indistintamente essa interpretação a denominações inteiras. Diferentes tradições cristãs possuem posições diversas acerca da relação entre Gênesis e a cronologia científica. Nosso argumento deve combater a interpretação, e não construir uma representação imprecisa daquilo que todos os membros de determinada tradição supostamente acreditam.

E quanto a Gênesis 2:4?

Gênesis 2:4 utiliza “dia” numa construção mais abrangente ao resumir a obra criadora. Isso demonstra precisamente que yôm possui flexibilidade semântica. Entretanto, não demonstra que todas as ocorrências da palavra devam receber o mesmo significado.

Em Gênesis 2:4 encontramos uma expressão resumitiva. Em Gênesis 1 encontramos dias sucessivamente apresentados dentro de uma estrutura narrativa, numerados e associados à fórmula “tarde e manhã”. O contexto, portanto, permanece determinante.

A idade da Terra e a cronologia bíblica

Depois de examinarmos os dias da criação, surge outra questão: É possível determinar pelas Escrituras aproximadamente quanto tempo transcorreu desde a criação?

Precisamos ser cuidadosos. A Bíblia não possui um versículo declarando: “A Terra tem seis mil anos.” A estimativa de uma criação situada na ordem de milhares de anos resulta de reconstruções cronológicas feitas a partir das genealogias e de outros dados temporais das Escrituras.

Gênesis 5 apresenta a linhagem de Adão até Noé e registra repetidamente idades dos patriarcas relacionadas ao nascimento dos descendentes mencionados. Depois do dilúvio, Gênesis 11 continua a sequência genealógica de Sem em direção a Abraão.

Quando esses dados são compreendidos como uma cronologia contínua e associados a outras informações históricas da Bíblia, chega-se a uma história situada na ordem de milhares de anos. Ao longo da história, diferentes intérpretes chegaram a cálculos distintos. Um dos mais conhecidos foi o do arcebispo James Ussher, que situou a criação aproximadamente em 4004 a.C.

Entretanto, não devemos transformar uma reconstrução cronológica em uma declaração que a própria Bíblia não faz explicitamente. A formulação mais cuidadosa é: uma leitura dos seis dias como dias normais, associada a uma interpretação cronologicamente contínua das genealogias de Gênesis 5 e 11, conduz a uma criação recente, situada na ordem de milhares de anos.

Também devemos distinguir arqueologia de geologia e geocronologia. Artefatos arqueológicos podem contribuir para o conhecimento da história das sociedades humanas, mas não constituem, por si mesmos, um método para determinar a idade do planeta.

A geologia contemporânea convencional atribui à Terra uma idade aproximada de 4,54 bilhões de anos, utilizando diferentes evidências e métodos de datação. O fato de este artigo defender uma leitura criacionista recente não exige que representemos incorretamente a posição científica que estamos contestando. Uma defesa teológica torna-se mais forte quando apresenta corretamente a posição contrária antes de criticá-la.

A Palavra soberana do Criador

Durante grande parte da narrativa da criação encontramos repetidamente a ordem divina: “Haja...” Deus fala, e aquilo que determina acontece.

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.”

Gênesis 1:26 — ARA

Aqui a narrativa alcança seu ponto culminante. O homem não aparece simplesmente como mais uma criatura dentro da sucessão dos seres vivos. Ele recebe uma posição singular dentro da criação. Foi criado à imagem e semelhança de Deus.

II — A CRIAÇÃO DO SER HUMANO E SEU PROPÓSITO

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”

Gênesis 1:27 — ARA

O ser humano pertence inteiramente à criação e depende de seu Criador, mas recebe uma condição singular: foi criado à imagem e semelhança de Deus.

O homem formado do pó da terra

“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.”

Gênesis 2:7 — ARA

Duas verdades fundamentais aparecem nessa passagem. Primeiro, o homem foi formado do pó da terra. Isso estabelece sua condição de criatura. O homem não é eterno, autossuficiente ou Deus por natureza. Segundo, a vida do homem procede de Deus.

Assim, encontramos uma extraordinária combinação entre humildade e dignidade. O homem procede do pó, mas foi criado à imagem de Deus.

Uma atuação direta e pessoal do Criador

Há ainda uma característica particularmente bela na descrição da formação de Adão. Na criação de diversos elementos encontramos repetidamente a expressão: “Haja...” Deus ordena, e aquilo que determina vem à existência.

Entretanto, quando a narrativa descreve a criação do primeiro homem, Gênesis 2:7 apresenta uma ação singular: Deus forma o homem do pó da terra e sopra em suas narinas o fôlego de vida, fazendo dele um ser vivente.

A linguagem ressalta a atuação direta e pessoal do Criador na formação de Adão. Essa verdade adquire ainda maior significado quando relacionada à declaração de Gênesis 1:26. O homem é, portanto, apresentado como criatura intencionalmente formada por Deus, criada à sua imagem e conforme a sua semelhança, recebendo uma posição singular dentro da criação.

Imagem e semelhança de Deus

O que significa dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus? Certamente essa expressão possui implicações morais, racionais, relacionais e funcionais. O homem possui consciência moral, capacidade racional, relacionamento pessoal, criatividade e responsabilidade. Gênesis relaciona ainda a imagem divina ao exercício de domínio sobre a criação.

Entretanto, dentro da interpretação defendida neste estudo, entendemos que não existe necessidade de limitar “imagem” e “semelhança” exclusivamente a características abstratas, excluindo antecipadamente toda correspondência de forma ou aparência.

“Deus é espírito”

“Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.”

João 4:24 — ARA

Essa declaração estabelece claramente a natureza espiritual de Deus. Entretanto, afirmar que Deus é espírito não significa necessariamente concluir que Ele seja uma realidade impessoal ou que jamais possa revelar-se mediante uma forma perceptível.

As Escrituras demonstram que a realidade espiritual não é incompatível com manifestação visível. No batismo de Yeshua, por exemplo, Lucas relata que o Espírito Santo desceu sobre Ele “em forma corpórea, como pomba” (Lc 3:22).

Precisamos empregar a terminologia corretamente: o Espírito Santo não se encarnou como uma pomba. A encarnação, no sentido cristológico, refere-se ao Filho eterno tornando-se verdadeiramente homem (Jo 1:14). Lucas descreve uma manifestação do Espírito Santo em forma perceptível.

E quanto à aparência de Deus?

Daniel descreve o Ancião de Dias assentado em seu trono, mencionando suas vestes e cabelos (Dn 7:9). Ezequiel, em sua visão, fala de uma figura “semelhante a um homem” assentada sobre o trono (Ez 1:26).

Essas passagens pertencem a contextos visionários e possuem forte linguagem simbólica. Por isso, não devemos transformar automaticamente cada detalhe em uma descrição anatômica literal de Deus. Entretanto, também não devemos ignorar aquilo que os textos apresentam. A glória divina é revelada mediante uma forma pessoal reconhecível.

Dentro da interpretação adotada neste estudo, entendemos, portanto, que João 4:24 não deve ser utilizado isoladamente como prova de que nenhuma correspondência de aparência possa estar envolvida na expressão “imagem e semelhança”. Deus permanece espírito quanto à sua natureza,

enquanto as Escrituras demonstram que Ele pode revelar-se de maneira perceptível segundo sua soberana vontade.

Adão e Sete: uma comparação importante

“Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete.”

Gênesis 5:3 — ARA

A semelhança verbal com Gênesis 1:26 merece atenção. Deus diz: “à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Sete é apresentado: “à sua semelhança, conforme a sua imagem”.

Sete não era Adão nem possuía a mesma identidade pessoal de seu pai. Contudo, era verdadeiramente sua imagem e semelhança. Dentro da argumentação deste estudo, essa comparação demonstra que os termos não precisam ser reduzidos exclusivamente a qualidades morais abstratas.

Entretanto, uma distinção fundamental permanece: o homem jamais se torna Deus por ser sua imagem.

Semelhança não significa igualdade de essência

Deus é eterno. O homem teve princípio.

Deus é Criador. O homem é criatura.

Deus possui existência em si mesmo. O homem recebe sua existência.

Portanto, imagem não significa identidade; semelhança não significa igualdade de essência. A criatura pode refletir verdadeiramente aspectos daquele que a criou sem deixar de ser criatura.

A criação da mulher

A dignidade da imagem divina não pertence exclusivamente ao homem. Gênesis 1:27 afirma que Deus criou homem e mulher à sua imagem.

“Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.”

Gênesis 2:18 — ARA

Homem e mulher possuem distinção sexual, mas compartilham a mesma dignidade fundamental de criaturas humanas feitas à imagem de Deus.

O propósito original do homem

Viver para a glória de Deus

Isaías 43:7 fala daqueles que Deus criou para sua glória. A finalidade última da existência humana não se encontra no próprio homem. Fomos criados para a glória de Deus.

Viver em comunhão com o Criador

O homem não foi criado simplesmente para administrar um planeta. Foi criado para viver diante de Deus. Por isso, a maior tragédia da queda não será apenas a perda do jardim, mas a ruptura da comunhão entre a criatura e o Criador.

Multiplicar a humanidade

“Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra...”

Gênesis 1:28 — ARA

Antes da queda, Adão e Eva foram criados sem a corrupção moral que posteriormente atingiria a humanidade. A ordem para multiplicarem-se apontava para a expansão da humanidade composta de portadores da imagem de Deus, vivendo sob sua autoridade e bênção.

Exercer domínio responsável

Imediatamente depois da referência à imagem de Deus encontramos a ordem para que o homem exerça domínio sobre a criação. Essa autoridade não significa propriedade absoluta. Deus é o proprietário; o homem é administrador.

Cultivar e guardar

“Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.”

Gênesis 2:15 — ARA

O trabalho, portanto, existia antes do pecado. A queda tornaria o trabalho penoso, mas cultivar, administrar, desenvolver e cuidar pertenciam à vocação humana original.

Da imagem criada à imagem restaurada

O pecado afetará profundamente a humanidade, mas não terá a palavra final. Colossenses 3:10 fala do novo homem sendo renovado segundo a imagem daquele que o criou.

Criação: o homem é feito à imagem de Deus.

Queda: o pecado corrompe profundamente sua condição.

                                            Redenção: em Cristo começa sua restauração.

Glorificação: aquilo que Deus iniciou alcançará sua plenitude.

“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.”

Gênesis 1:31 — ARA

O mal moral não é apresentado como elemento original da humanidade criada por Deus. Então surge a pergunta: Se Deus é bom e sua criação era muito boa, como o mal entrou no mundo?

III — A ORIGEM DO MAL, A REBELIÃO DE SATANÁS E A QUEDA DO HOMEM

As Escrituras não apresentam Deus como autor moral do pecado. Tiago declara que Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta (Tg 1:13). O mal moral manifesta-se quando a criatura se rebela contra a vontade santa do Criador.

Hêlêl — Isaías 14:12

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações!”

Isaías 14:12 — ARA

No hebraico encontramos a expressão הֵילֵל בֶּן־שָׁחַר (hêlêl ben-sháḥar), tradicionalmente relacionada à ideia de “estrela da manhã, filho da alva”. É nesse contexto que encontramos a conhecida palavra Lúcifer.

“Lúcifer” não aparece como nome próprio no texto hebraico. A tradição latina empregou lucifer, expressão associada à estrela da manhã. Posteriormente, em razão da interpretação cristã que relacionou Isaías 14 à queda de Satanás, o termo passou a ser utilizado tradicionalmente como nome do adversário antes de sua queda.

O contexto: o rei da Babilônia

Isaías 14:4 apresenta o discurso como um motejo contra o rei da Babilônia. Não devemos apagar esse contexto histórico.

“Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono [...] subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.”

Isaías 14:13–14 — ARA

Aqui aparece um princípio fundamental: a criatura deseja elevar-se acima da posição que Deus lhe concedeu. Dentro da interpretação defendida neste estudo, embora o referente histórico imediato seja o rei da Babilônia, sua arrogância retrata um padrão de rebelião que encontra correspondência na oposição espiritual de Satanás contra Deus. Assim, preservamos simultaneamente o contexto histórico e a aplicação teológica.

O querubim de Ezequiel 28

Ezequiel 28 trata inicialmente do governante de Tiro e denuncia sua arrogância. Posteriormente, na lamentação sobre o rei de Tiro, aparece uma linguagem extraordinária: são mencionados o Éden, o querubim da guarda e uma criatura originalmente íntegra na qual posteriormente foi encontrada iniquidade (Ez 28:13–15).

Novamente precisamos respeitar o contexto histórico. O texto não declara simplesmente: “Este personagem é Satanás.” Entretanto, dentro da interpretação adotada neste estudo, a linguagem permite compreender, por trás da arrogância do governante terreno, uma realidade espiritual associada à rebelião do adversário.

Como surgiu a iniquidade?

“Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti.”

Ezequiel 28:15 — ARA

A resposta não exige transformar Deus no autor do pecado. Existe diferença entre criar uma criatura dotada de capacidade moral e causar sua decisão pecaminosa.

Dentro da interpretação que relaciona Ezequiel 28 à rebelião espiritual, o versículo 17 apresenta elementos importantes: orgulho, autoexaltação e corrupção daquilo que originalmente havia sido recebido do Criador. O pecado não precisa ser entendido como uma substância criada por Deus. O mal moral manifesta-se na rebelião da criatura contra o Criador.

Satanás e a rebelião celestial

Apocalipse 12 apresenta uma passagem na qual a identidade do adversário é explícita. João descreve uma batalha celestial envolvendo Miguel e seus anjos contra o dragão e seus anjos (Ap 12:7).

“...a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás...”

Apocalipse 12:9 — ARA

Aqui encontramos: o dragão → a antiga serpente → o Diabo → Satanás. Isso estabelece uma importante ligação teológica com Gênesis.

Apocalipse 12:4 também fala da terça parte das estrelas do céu sendo arrastada pela cauda do dragão. Dentro da interpretação adotada neste estudo, essa imagem é relacionada aos seres angelicais associados à rebelião de Satanás. Entretanto, como Apocalipse utiliza linguagem intensamente simbólica, devemos evitar transformar cada elemento da visão automaticamente em descrição cronológica literal.

Por que Deus não destruiu Satanás imediatamente?

Se Deus possui poder absoluto, por que não destruiu Satanás imediatamente? As Escrituras não apresentam uma explicação completa de todos os motivos pelos quais Deus permitiu temporariamente a atuação do adversário. Por isso, precisamos distinguir revelação explícita de reflexão teológica.

Uma verdade, entretanto, é inequívoca: a existência temporária de Satanás não significa incapacidade da parte de Deus. Satanás continua sendo criatura. Deus continua sendo soberano. E o destino final do adversário encontra-se revelado em Apocalipse 20:10.

Podemos considerar teologicamente que Deus permite temporariamente a manifestação da rebelião dentro de seu propósito soberano, sem jamais perder o controle da história. As consequências da independência da criatura em relação ao governo divino tornam-se igualmente manifestas. Mas essa explicação deve ser reconhecida como reflexão teológica, e não apresentada como se houvesse um versículo afirmando detalhadamente todos os motivos de Deus.

A rebelião chega à experiência humana

“É assim que Deus disse...?”

Gênesis 3:1 — ARA

Observe a estratégia. Primeiro: questiona-se a Palavra. Depois: nega-se a Palavra. Finalmente: oferece-se à criatura uma pretensão de autonomia diante do Criador.

“É certo que não morrereis.”

Gênesis 3:4 — ARA

A serpente apresenta ainda a possibilidade de serem “como Deus” (Gn 3:5). A criatura é seduzida pela possibilidade de ultrapassar os limites estabelecidos pelo Criador.

A queda do homem

Adão e Eva possuíam liberdade, mas não soberania absoluta. Deus havia estabelecido um limite moral em Gênesis 2:16–17. Quando transgrediram a ordem, o problema não estava simplesmente no ato físico de comer determinado fruto. O ato exterior manifestava uma decisão interior: a criatura colocou sua própria escolha acima da Palavra do Criador.

As consequências imediatas

·         vergonha;

·         medo;

·         tentativa de esconder-se;

·         transferência de responsabilidade;

·         ruptura dos relacionamentos;

·         separação.

A comunhão dá lugar ao medo. A transparência dá lugar à vergonha. A responsabilidade dá lugar à acusação. O pecado revela imediatamente seu caráter destrutivo.

O pecado e a morte

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte...”

Romanos 5:12 — ARA

A queda possui consequências para toda a humanidade. O homem que havia sido criado para viver diante de Deus agora necessita ser resgatado. Mas justamente no capítulo da queda aparece uma das declarações mais importantes da história bíblica.

A primeira promessa de redenção

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

Gênesis 3:15 — ARA

Na tradição cristã, essa passagem é frequentemente chamada de protoevangelho, a primeira antecipação da boa notícia da redenção. O pecado entrou. A comunhão foi rompida. A morte tornou-se realidade. Entretanto, a serpente não teria a palavra final. A história bíblica passa a desenvolver progressivamente a esperança de um Redentor.

IV — A MISERICÓRDIA DE DEUS E A OBRA REDENTORA DE YESHUA HAMASHIA (JESUS CRISTO)

A queda não anulou a misericórdia de Deus nem frustrou seu propósito soberano.

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim.”

Lamentações 3:22 — ARA

A misericórdia divina não significa que Deus considere o pecado irrelevante. Na obra de Cristo encontramos justiça e graça, santidade e amor.

O plano redentor não foi uma improvisação

Efésios 1:4 fala do propósito de Deus em Cristo antes da fundação do mundo, enquanto 1 Pedro 1:20 apresenta Cristo como conhecido antes da fundação do mundo e posteriormente manifestado.

A cruz não foi uma tentativa de Deus de reparar um plano que havia fracassado. A redenção em Cristo pertence ao propósito soberano de Deus e foi progressivamente revelada ao longo da história bíblica.

O Verbo se fez carne

“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.”

João 1:1 — NVI

“Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós.”

João 1:14 — NVI

Yeshua Hamashia não começou a existir quando nasceu em Belém. O Filho já existia antes de assumir a natureza humana. Aquele por intermédio de quem todas as coisas foram criadas entrou na própria criação.

O Filho não deixou de ser Deus para tornar-se homem. Na encarnação, aquele que possui natureza divina assumiu verdadeira natureza humana.

Verdadeiramente humano e sem pecado

A humanidade de Cristo não foi mera aparência. Ele nasceu, cresceu, sentiu fome, sede e cansaço, sofreu e verdadeiramente morreu. Entretanto, Pedro afirma que Ele não cometeu pecado (1Pe 2:22).

Yeshua não morreu por culpa própria. Ele pôde oferecer-se em favor dos pecadores porque não estava debaixo de condenação decorrente de pecado pessoal.

O primeiro Adão e o último Adão

“O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante.”

1 Coríntios 15:45 — ARA

O primeiro Adão recebeu um mandamento e desobedeceu.

Cristo permaneceu obediente.

Por Adão o pecado entrou na experiência humana.

Por Cristo Deus providenciou o caminho da reconciliação.

Por Adão veio condenação.

Em Cristo encontramos justificação.

“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.”

Romanos 5:19 — ARA

A cruz e o problema do pecado

Por que Yeshua precisava morrer? Porque o problema humano não poderia ser resolvido simplesmente por educação, desenvolvimento intelectual ou esforço moral.

“Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus.”

Romanos 3:23 — NVI

Isaías havia anunciado o sofrimento substitutivo daquele que seria ferido por causa das transgressões de outros (Is 53:5).

“...carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados...”

1 Pedro 2:24 — ARA

Yeshua, sendo inocente, entrega sua vida em favor dos culpados.

O precioso sangue de Cristo

“...mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo.”

1 Pedro 1:19 — ARA

O pecador não consegue comprar sua redenção. O preço não foi prata. Não foi ouro. Não foram méritos religiosos. Foi o precioso sangue de Cristo. Por isso, a salvação não pode ser apresentada como conquista humana.

“Deus amou o mundo”

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.”

João 3:16 — NVI

Observe: Deus amou — e Deus deu. O amor divino manifesta-se em ação redentora. O Pai envia o Filho, e o Filho voluntariamente entrega sua vida. A cruz revela simultaneamente a gravidade do pecado e a grandeza do amor de Deus.

Justificação

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.”

Romanos 5:1 — ARA

Nossa esperança não se encontra na afirmação “Eu nunca pequei” nem em “Minhas boas obras são suficientes”. Nossa esperança encontra-se em Cristo.

Reconciliação

A palavra reconciliação é especialmente importante. No Éden, depois do pecado, Adão escondeu-se. O medo substituiu a comunhão. Agora Paulo declara que, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho (Rm 5:10).

O problema iniciado em Gênesis não era apenas jurídico. Era também relacional. Em Cristo, Deus providencia o caminho da reconciliação.

A salvação é pela graça

“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé [...] não por obras, para que ninguém se glorie.”

Efésios 2:8–9 — NVI

Isso não significa que boas obras sejam irrelevantes. Efésios 2:10 afirma que fomos criados em Cristo para boas obras. A ordem, entretanto, precisa permanecer correta: as boas obras não compram a salvação; elas devem surgir como fruto de uma vida alcançada e transformada pela graça.

A cruz não é o fim da história

Yeshua morreu. Foi sepultado. Mas o Evangelho não termina diante de um túmulo fechado. Paulo resume a mensagem apostólica afirmando que Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia (1Co 15:3–4).

“E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé...”

1 Coríntios 15:17 — ARA

Yeshua foi crucificado.

Yeshua morreu.

Yeshua foi sepultado.

E Yeshua ressuscitou dentre os mortos.

Vitória sobre a morte e o adversário

Hebreus 2:14–15 relaciona a obra de Cristo à derrota daquele que tem o poder da morte, o Diabo, e à libertação daqueles que viviam escravizados pelo medo da morte.

Agora podemos retornar a Gênesis 3:15. A serpente introduziu a mentira. O homem caiu. A morte entrou na experiência humana. Mas Deus havia prometido que o descendente da mulher feriria a cabeça da serpente.

Satanás não vencerá.

O pecado não vencerá.

A morte não vencerá.

Da redenção à restauração

Colossenses 3:10 fala do novo homem sendo renovado segundo a imagem daquele que o criou. Assim, em Gênesis, o homem é criado à imagem de Deus; na queda, o pecado corrompe profundamente sua condição; em Cristo, começa sua restauração.

A redenção não significa apenas escapar da condenação. Deus salva para reconciliar, transformar e restaurar.

V — A RESPOSTA HUMANA AO EVANGELHO: ARREPENDIMENTO, FÉ E NOVA VIDA EM CRISTO

Depois de tudo o que examinamos, a mensagem alcança pessoalmente cada ser humano. Deus criou. O homem pecou. Deus prometeu o Redentor. Yeshua veio, morreu pelos pecadores e ressuscitou. Diante disso: E agora, o que devo fazer?

A salvação é pela graça

O primeiro ponto precisa ficar absolutamente claro: o ser humano não pode salvar a si mesmo. A salvação não pode ser comprada. Não pode ser conquistada por boas obras. Não é recompensa por religiosidade. O preço da redenção já foi pago por Yeshua.

A salvação é iniciativa da graça de Deus e está fundamentada na obra de Cristo, não nos méritos do pecador. Mas isso não significa que o homem possa permanecer indiferente diante do Evangelho.

Arrependam-se e creiam

“O tempo é chegado [...] O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas-novas!”

Marcos 1:15 — NVI

Encontramos dois elementos fundamentais: arrependimento e fé.

Arrependimento

No Novo Testamento, um dos principais termos relacionados ao arrependimento é o grego μετάνοια (metánoia). O conceito envolve mudança de mente e direção diante de Deus.

Arrependimento não é simplesmente lamentar as consequências do pecado. O verdadeiro arrependimento reconhece: “Pequei contra Deus. Meu caminho está errado. Preciso voltar-me para Ele.”

Crer em Yeshua não significa apenas admitir intelectualmente que Ele existiu. Tiago lembra que até os demônios creem e tremem (Tg 2:19). A fé salvadora abandona a confiança no próprio mérito e volta-se para Cristo.

Não posso salvar a mim mesmo.

Minhas obras não podem apagar minha culpa.

Preciso da graça de Deus.

Minha esperança está em Cristo.

“Que devo fazer para ser salvo?”

“Senhores, que devo fazer para ser salvo?”

Atos 16:30 — NVI

“Creia no Senhor Jesus...”

Atos 16:31 — NVI

No Pentecostes, os ouvintes de Pedro também perguntaram: “Irmãos, que faremos?” Pedro respondeu: “Arrependei-vos...” (At 2:37–38). O Evangelho, portanto, não é apenas informação para ser analisada. Existe um chamado.

Confessar Yeshua como Senhor

Romanos 10:9 relaciona a salvação à confissão de Jesus como Senhor e à fé em sua ressurreição. Confessar Yeshua como Senhor não significa simplesmente pronunciar uma frase. É reconhecer sua autoridade.

O pecador que anteriormente desejava conduzir sua existência independentemente do Criador é chamado a reconhecer o senhorio de Cristo.

Graça divina e responsabilidade humana

Precisamos manter um equilíbrio importante. Seria um erro afirmar que o homem salva a si mesmo por meio de sua decisão. A decisão humana não é o preço da salvação. O preço já foi pago por Cristo.

Por outro lado, seria igualmente inadequado concluir que, por a salvação ser pela graça, a resposta humana não importa. As Escrituras chamam: arrependa-se; creia; venha a Cristo; siga-o.

“Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida.”

Apocalipse 22:17 — NVI

Assim, a resposta humana não constitui mérito capaz de comprar a salvação; ela é a resposta do pecador ao chamado do Evangelho e à graça que lhe é oferecida em Cristo.

E quanto ao livre-arbítrio?

O texto original utilizava Jeremias 21:8 — o caminho da vida e o caminho da morte — como argumento relacionado à liberdade humana. Entretanto, Jeremias 21 possui um contexto histórico específico: o julgamento de Jerusalém diante da invasão babilônica.

Para tratar diretamente do chamado do Evangelho, textos como Marcos 1:15, João 3:16, Atos 16:31 e Apocalipse 22:17 fornecem fundamento mais direto. Isso não elimina a responsabilidade humana. Pelo contrário, torna o argumento exegeticamente mais preciso.

A verdadeira conversão produz mudança

Ser salvo pela graça não significa receber autorização para permanecer deliberadamente em rebelião.

“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?”

Romanos 6:1 — ARA

“De modo nenhum!”

Romanos 6:2 — ARA

A graça que perdoa também transforma.

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura...”

2 Coríntios 5:17 — ARA

Isso não significa perfeição instantânea. O cristão ainda enfrenta tentações e precisa crescer em santificação. Entretanto, existe uma mudança fundamental: o pecado já não deve ser tratado como senhor legítimo de sua vida.

Boas obras: causa ou consequência?

As boas obras não são a causa da salvação. Devem ser consequência de uma vida transformada pela graça. A ordem bíblica é: graça → salvação → nova vida → boas obras. E não: boas obras → mérito → salvação.

Seguir Yeshua

“Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.”

Lucas 9:23 — NVI

A conversão envolve mudança de direção. A pessoa que antes reivindicava autonomia sobre sua existência passa a reconhecer: Yeshua é Senhor. Isso alcança nossos valores, escolhas, relacionamentos, prioridades e caráter.

Santificação

“Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação...”

1 Tessalonicenses 4:3 — ARA

Santificação não significa perfeição absoluta instantânea. Significa uma vida progressivamente transformada pela atuação de Deus, na qual o crente é chamado a crescer em obediência. A redenção nos conduz novamente ao propósito da criação.

Perseverar na fé

A vida cristã não termina no momento inicial da conversão. Ela começa ali. O cristão é chamado a permanecer em Cristo, crescer no conhecimento da Palavra, viver em comunhão com Deus e perseverar na fé.

“Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai completá-la até o dia de Cristo Jesus.”

Filipenses 1:6 — NVI

E AGORA, O QUE VOCÊ FARÁ?

Você viu o testemunho das Escrituras acerca do Criador. Viu que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Viu a realidade da rebelião e as consequências do pecado. Viu a promessa feita ainda no Éden. Viu que o Filho entrou na história humana.

Yeshua viveu sem pecado.

Morreu pelos pecadores.

Derramou seu precioso sangue.

Foi sepultado.

E ressuscitou dentre os mortos.

A salvação não está à venda. Você não consegue comprá-la. Não consegue conquistá-la acumulando méritos. Ela é oferecida pela graça de Deus.

Arrependa-se.

Creia em Yeshua Hamashia (Jesus Cristo).

Confesse-o como Senhor.

Abandone o caminho da rebelião.

Receba pela fé a graça que você jamais poderia comprar.

E siga aquele que entregou sua vida para reconciliar pecadores com Deus.

Não estamos falando simplesmente da escolha entre pertencer ou não a determinada organização religiosa. Estamos falando de reconciliação com o Criador.

“Qual será a sua resposta ao chamado de Deus?”

CONCLUSÃO — DA CRIAÇÃO À NOVA CRIAÇÃO

Começamos este estudo perguntando: Quem criou o universo e o homem? As Escrituras responderam: Deus.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”

Gênesis 1:1 — ARA

Perguntamos: Para que o homem foi criado? Descobrimos que Deus o criou à sua imagem e semelhança, concedendo-lhe dignidade, responsabilidade e propósito.

Depois perguntamos: Se Deus é bom e tudo aquilo que criou era muito bom, como o mal entrou no mundo? Encontramos a rebelião da criatura contra o Criador. A arrogância substituiu a submissão. A mentira procurou substituir a Palavra. No Éden, Adão e Eva escolheram a desobediência.

O pecado trouxe vergonha, medo, ruptura, sofrimento e morte. Mas a história não terminou no Éden.

A promessa permaneceu

“Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

Gênesis 3:15 — ARA

Uma promessa atravessaria a história. O Redentor viria. Na plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher (Gl 4:4). O Filho eterno assumiu verdadeira natureza humana. Aquele por intermédio de quem todas as coisas foram criadas entrou na criação. O inocente tomou sobre si aquilo que pertencia aos culpados. O Cordeiro derramou seu sangue. Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou.

Do primeiro Adão ao último Adão

O primeiro Adão desobedeceu. O último Adão foi obediente. Por meio do primeiro, o pecado entrou na experiência humana. Em Cristo encontramos a resposta redentora de Deus.

Criação.

Rebelião.

Queda.

Promessa.

Redenção.

Restauração.

Da primeira criação à nova criação

Existe uma extraordinária correspondência entre o início e o final das Escrituras.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”

Gênesis 1:1 — ARA

“Vi novo céu e nova terra...”

Apocalipse 21:1 — ARA

Em Gênesis encontramos a criação. Em Apocalipse encontramos a nova criação. Em Gênesis, o pecado entra na experiência humana. Na consumação, a morte será definitivamente vencida.

“E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá...”

Apocalipse 21:4 — ARA

A história bíblica caminha, portanto, do Éden perdido à criação restaurada.

Tudo converge em Cristo

No centro dessa história encontra-se Yeshua Hamashia (Jesus Cristo). Ele é aquele por intermédio de quem todas as coisas foram criadas. É aquele que entrou na história humana. É aquele que morreu pelos pecadores. É aquele que ressuscitou. É aquele em quem encontramos reconciliação com Deus. E é aquele por meio de quem a história caminha para sua consumação.

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”

Romanos 11:36 — ARA

Assim, nossa investigação termina onde toda a criação encontra sua finalidade: na glória de Deus.

O Deus que criou é o Deus que redime. O Deus santo é também misericordioso. O Deus que julga o pecado é aquele que providenciou o Redentor. E aquele que começou sua obra cumprirá seu propósito.

Por isso, a mensagem deste estudo não é simplesmente “Descubra como o mundo começou”. Ela é muito maior:

Conheça o seu Criador.

Reconheça a realidade do pecado.

Contemple a obra do Redentor.

Arrependa-se e creia no Evangelho.

Siga Yeshua Hamashia.

E viva para a glória daquele que criou todas as coisas.

E permanece diante de cada leitor a pergunta final: Qual será a sua resposta ao chamado de Deus?

Por Cleriston Bezerra

REFERÊNCIAS BÍBLICAS E BIBLIOGRÁFICAS

·         BÍBLIA. A Bíblia da Mulher: leitura, devocional, estudo. Texto bíblico: Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. 2.216 p

·         BÍBLIA. Bíblia Leitura Perfeita: Letra Grande. Texto bíblico: Nova Versão Internacional (NVI). 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018. 1.184 p.

·        BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament: with an Appendix Containing the Biblical Aramaic. Oxford: Clarendon Press, 1907.

·         KÖHLER, Ludwig; BAUMGARTNER, Walter; STAMM, Johann Jakob. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT). Tradução e edição sob supervisão de M. E. J. Richardson. 5 v. Leiden: E. J. Brill, 1994–2000.

·         LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert; JONES, Henry Stuart. A Greek-English Lexicon. 9. ed. Oxford: Clarendon Press, 1940.

·         NESTLE, Eberhard; NESTLE, Erwin; ALAND, Barbara; ALAND, Kurt et al. (eds.). Novum Testamentum Graece. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.

·         ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. rev., preparada por Adrian Schenker. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.

NOTA SOBRE AS TRADUÇÕES BÍBLICAS

As citações das Escrituras empregadas neste artigo foram extraídas principalmente da Almeida Revista e Atualizada (ARA), 2ª edição, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, e da Nova Versão Internacional (NVI), conforme os exemplares relacionados nas referências bibliográficas acima.