OS ENSINOS DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ À PROVA DAS ESCRITURAS — PARTE V
O “escravo fiel e prudente” e a autoridade do Corpo Governante à prova das Escrituras
Cleriston Bezerra
As Testemunhas de Jeová ensinam que o “escravo fiel e prudente” mencionado por Jesus em Mateus 24 corresponde atualmente ao Corpo Governante e que Cristo o designou para essa função. Mas onde as próprias Escrituras estabelecem essa identificação?
Nesta Parte V, examinaremos se essa reivindicação de autoridade encontra apoio no próprio texto bíblico.
Este artigo faz parte da série “Os Ensinos das Testemunhas de Jeová à Prova das Escrituras”. O estudo foi dividido em partes, cada uma dedicada ao exame de um ensino específico à luz das Escrituras.
Introdução
Ao longo deste estudo temos seguido um princípio fundamental: nenhum ensino religioso deve ser aceito como verdadeiro apenas porque reivindica apoio bíblico ou autoridade divina. Ele precisa permanecer de pé diante daquilo que as próprias Escrituras ensinam.
Esse princípio se torna especialmente importante quando uma organização religiosa afirma possuir uma posição singular na interpretação e transmissão da vontade de Deus. Nesse caso, a questão não envolve apenas uma doutrina específica. Envolve também a própria fonte de autoridade utilizada para estabelecer doutrinas, orientar a consciência dos fiéis e determinar aquilo que deve ser aceito como verdade religiosa.
Jesus apresentou, em Seu discurso registrado em Mateus 24, a ilustração do “servo fiel e prudente”:
“Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem seu senhor encarregou dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo a quem seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto que ele o encarregará de todos os seus bens.”
— Mateus 24:45–47, NVI
Essas palavras precisam ser compreendidas, antes de tudo, dentro do próprio discurso de Jesus. Não devemos começar atribuindo ao “servo fiel e prudente” a identidade fornecida posteriormente por qualquer organização religiosa. Primeiro precisamos perguntar o que Cristo estava ensinando aos Seus discípulos.
Cristo estava profetizando que, muitos séculos depois, surgiria uma organização religiosa específica cujo grupo dirigente seria constituído como Seu canal de comunicação com os cristãos? Ou estava ensinando Seus seguidores a permanecerem fiéis, vigilantes e responsáveis durante o período de Sua ausência, aguardando Sua volta?
Essa questão não pode ser resolvida pela autoridade de uma organização que reivindique para si a identidade do servo. A própria reivindicação é justamente aquilo que precisa ser demonstrado pelas Escrituras.
A pergunta central desta Parte V
O ensino das Testemunhas de Jeová de que o “escravo fiel e prudente” de Mateus 24:45–47 corresponde atualmente ao Corpo Governante, constituído por Cristo para fornecer alimento espiritual aos Seus seguidores, encontra apoio nas próprias Escrituras?
Primeiro, as Escrituras estabelecem aquilo que Jesus ensinou. Depois, a reivindicação de autoridade religiosa é examinada diante desse testemunho.
As Escrituras não estão no banco dos réus. Elas são o tribunal. O que está sendo julgado à luz delas são os ensinos das Testemunhas de Jeová.
1. O que Jesus realmente disse sobre o “servo fiel e prudente”?
“Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem seu senhor encarregou dos de sua casa para lhes dar alimento no tempo devido? Feliz o servo a quem seu senhor encontrar fazendo assim quando voltar. Garanto que ele o encarregará de todos os seus bens.”
— Mateus 24:45–47, NVI
A primeira observação é fundamental: Jesus não identifica nominalmente o servo. Ele não menciona uma organização religiosa futura, não menciona um Corpo Governante e não declara que séculos depois surgiria um grupo de homens que funcionaria como canal exclusivo de Deus para todos os cristãos.
O próprio contexto indica a finalidade da ilustração. Pouco antes, Jesus havia advertido:
“Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor.”
— Mateus 24:42, NVI
E logo depois apresenta o contraste com o servo mau, que diz:
“Meu senhor está demorando.”
— Mateus 24:48, NVI
Portanto, a ilustração está inserida diretamente no ensino de Cristo sobre vigilância, fidelidade e responsabilidade enquanto Seus seguidores aguardam Sua volta.
Uma coisa é aquilo que Jesus realmente disse no texto. Outra coisa é uma organização religiosa identificar posteriormente a si mesma como o cumprimento exclusivo desse texto.
A segunda afirmação não pode adquirir autoridade simplesmente porque foi feita pela própria organização interessada em ser reconhecida como o “servo”. Ela precisa ser demonstrada pelas Escrituras.
Onde, nas palavras de Jesus, encontramos o elo bíblico que transforma o “servo fiel e prudente” de Sua ilustração no Corpo Governante das Testemunhas de Jeová?
Esse elo não é fornecido pelo texto. A identificação é acrescentada por uma interpretação posterior.
2. O que as Testemunhas de Jeová afirmam sobre o “escravo fiel e prudente”?
As publicações oficiais das Testemunhas de Jeová identificam diretamente o “escravo fiel e prudente” de Mateus 24:45 com o Corpo Governante. A organização ensina que esse pequeno grupo de homens foi designado por Jesus para fornecer “alimento espiritual” e orientação aos cristãos em todo o mundo. Também ensina que Jesus fez essa designação em 1919.
Mateus 24:45 → “escravo fiel e prudente” → Corpo Governante das Testemunhas de Jeová → designação por Jesus em 1919
Mas justamente aqui se encontra o ponto que precisa ser demonstrado. Mateus 24:45 fala do “servo fiel e prudente”. O texto, porém, não diz que esse servo seria chamado Corpo Governante, não o identifica com uma organização religiosa que surgiria séculos depois e tampouco menciona 1919 como data de sua designação.
Uma organização não adquire autoridade bíblica simplesmente por identificar a si mesma como o cumprimento de uma passagem das Escrituras. A identificação também precisa ser demonstrada pelas próprias Escrituras.
3. Onde está, nas Escrituras, a designação do Corpo Governante?
A identificação “servo fiel e prudente = Corpo Governante das Testemunhas de Jeová” não aparece nas palavras de Cristo. Ela é fornecida posteriormente pela própria organização que reivindica ocupar essa posição.
A própria reivindicação não pode servir como prova da reivindicação.
Se uma organização afirma que possui autoridade porque é o “servo fiel e prudente”, mas a prova de que ela é esse servo depende da interpretação fornecida pela própria organização, estabelece-se um raciocínio circular.
Onde as Escrituras identificam o “servo fiel e prudente” com o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová?
Onde as Escrituras estabelecem que Jesus fez essa designação em 1919?
As Escrituras não permitem identificar o “servo fiel e prudente” de Mateus 24:45–47 com o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, nem permitem afirmar que Jesus tenha designado esse grupo em 1919. Essas identificações não são fornecidas pelo texto bíblico. Elas são acrescentadas ao texto pela interpretação da própria organização.
Portanto, não estamos diante de uma autoridade estabelecida pelas Escrituras, mas de uma autoridade que a própria organização reivindica para si mediante interpretações particulares sem apoio das Escrituras.
Mateus 24:45–47 pertence às Escrituras. A identificação do servo com o Corpo Governante e sua suposta designação em 1919 pertencem à interpretação das Testemunhas de Jeová. Não podemos atribuir às Escrituras aquilo que as Escrituras não afirmam.
Ninguém recebe autoridade de Cristo simplesmente por declarar que uma ilustração de Cristo se refere a si mesmo. Essa autoridade precisa ser estabelecida pelas próprias Escrituras.
4. Lucas 12:41–48 — Jesus estava instituindo uma organização?
Lucas registra uma passagem paralela que ajuda a compreender a finalidade da ilustração. Depois de Jesus advertir Seus discípulos a permanecerem preparados para a volta do Senhor, Pedro pergunta:
“Senhor, estás contando esta parábola para nós ou para todos?”
— Lucas 12:41, NVI
Jesus responde apresentando o administrador fiel e prudente, encarregado de cuidar dos demais servos e fornecer-lhes alimento no tempo devido. Em seguida, apresenta também o administrador que se torna infiel durante a ausência de seu senhor.
O ponto central continua sendo fidelidade e responsabilidade durante a ausência do Senhor e prestação de contas quando Ele voltar. Jesus conclui:
“A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido.”
— Lucas 12:48, NVI
Nada na resposta de Jesus identifica uma organização religiosa futura, um Corpo Governante ou uma classe que surgiria em 1919. O relato paralelo não fornece a identificação que as Testemunhas de Jeová atribuem à ilustração.
A ilustração ensina responsabilidade; ela não concede às Testemunhas de Jeová autoridade para declarar que seu Corpo Governante é o cumprimento exclusivo da figura apresentada por Jesus.
Portanto, não estamos diante de uma autoridade estabelecida pelas Escrituras, mas de uma autoridade que a própria organização reivindica para si mediante interpretações particulares sem apoio das Escrituras.
5. A própria identidade do “escravo” mudou
Existe ainda uma dificuldade histórica para a reivindicação de que o Corpo Governante seja o “escravo fiel e prudente” designado por Cristo. A própria literatura oficial das Testemunhas de Jeová reconhece mudanças na identificação desse “servo”.
Em 1881, Charles Taze Russell entendia o “servo fiel e prudente” de maneira coletiva, abrangendo os membros ungidos do corpo de Cristo. Mais tarde, tornou-se amplamente aceita entre os Estudantes da Bíblia a interpretação de que o próprio Russell era o “servo fiel e prudente”. Em 1927, voltou-se a ensinar que o servo era uma classe coletiva de cristãos ungidos. Em 2013, a identificação foi restringida aos ungidos que compõem o Corpo Governante.
Corpo coletivo de cristãos ungidos → Russell individualmente → classe coletiva dos ungidos → ungidos que compõem o Corpo Governante
Se Mateus 24:45–47 realmente identifica profeticamente um grupo específico que receberia de Cristo autoridade para dirigir Seus seguidores, por que a identidade desse grupo não foi extraída de maneira estável do próprio texto, mas precisou ser redefinida ao longo da história da organização?
O problema fundamental permanece o mesmo: nenhuma dessas sucessivas identificações é fornecida por Mateus 24:45–47. O texto não identifica Russell. Não identifica uma classe de ungidos. Não identifica o Corpo Governante. E não estabelece 1919 como data de uma designação feita por Cristo.
As mudanças históricas não alteram aquilo que está escrito. O texto permaneceu o mesmo; o que mudou foi a interpretação que a organização fez do texto.
Conclusão — A autoridade reivindicada pelo Corpo Governante encontra apoio nas Escrituras?
Nossa investigação começou pelas palavras de Jesus, e não pela interpretação de uma organização religiosa. Em Mateus 24:45–47, Cristo apresenta o “servo fiel e prudente” no contexto de vigilância, fidelidade e responsabilidade enquanto Seus seguidores aguardam Sua volta. O relato paralelo de Lucas 12:41–48 confirma esse mesmo princípio.
Em nenhum desses textos Jesus identifica o servo com as Testemunhas de Jeová, com um Corpo Governante ou com uma organização religiosa que surgiria séculos depois. Também não encontramos nas Escrituras qualquer declaração de que Cristo faria uma designação dessa natureza em 1919. Esses elementos são acrescentados pela interpretação das próprias Testemunhas de Jeová.
A documentação histórica da organização torna a questão ainda mais evidente. Ao longo do tempo, a identidade atribuída ao “escravo fiel e prudente” mudou. Entretanto:
As mudanças históricas não alteram aquilo que está escrito. O texto permaneceu o mesmo; o que mudou foi a interpretação que a organização fez do texto.
Por isso, a questão decisiva não é se o Corpo Governante afirma ser o “escravo fiel e prudente”. A questão é se Jesus o identificou como tal nas Escrituras.
A resposta encontrada no próprio texto é clara: não.
Portanto, não estamos diante de uma autoridade estabelecida pelas Escrituras, mas de uma autoridade que a própria organização reivindica para si mediante interpretações particulares sem apoio das Escrituras.
Uma organização não adquire autoridade de Cristo simplesmente por declarar que uma ilustração de Cristo se refere a ela mesma. Essa autoridade precisaria ser estabelecida pelas próprias Escrituras.
Mateus 24:45–47 pertence às Escrituras. A identificação do servo com o Corpo Governante e sua suposta designação em 1919 pertencem à interpretação das Testemunhas de Jeová. Não podemos atribuir às Escrituras aquilo que as Escrituras não afirmam.
Assim, a pergunta central desta Parte V pode ser respondida:
O ensino das Testemunhas de Jeová de que o “escravo fiel e prudente” corresponde atualmente ao Corpo Governante, designado por Cristo para exercer essa função, encontra apoio nas próprias Escrituras?
Não. As Escrituras não permitem estabelecer essa identificação.
As Escrituras não estão no banco dos réus. Elas são o tribunal. O que está sendo julgado à luz delas são os ensinos das Testemunhas de Jeová.
Continue esta investigação
Depois de examinarmos o ensino sobre o “escravo fiel e prudente” e a autoridade atribuída ao Corpo Governante, nossa investigação prossegue para as consequências práticas dessa estrutura de autoridade. Na Parte VI, examinaremos a desassociação, a apostasia e o afastamento de ex-membros, verificando como esses ensinos e práticas permanecem de pé diante das Escrituras.
→ Continue a leitura: Parte VI — A Desassociação, a Apostasia e o Afastamento de Ex-Membros
Referências bibliográficas e documentais
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional (NVI). Biblica.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “O que ‘o escravo fiel e prudente’ faz?” Seja Feliz para Sempre! — Um Curso da Bíblia para Você, lição 54. Publicação oficial. A obra identifica o Corpo Governante como o “escravo fiel e prudente” designado por Jesus e descreve sua função de fornecer orientação e alimento espiritual.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “Como Jeová guia seu povo hoje?” A Sentinela (Estudo), fevereiro de 2017, pars. 10–11. Publicação oficial que afirma a designação do “escravo fiel e prudente” em 1919 e registra que A Sentinela de 15 de julho de 2013 identificou o “escravo” com os ungidos que fazem parte do Corpo Governante.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “Crescimento no conhecimento exato da verdade.” Testemunhas de Jeová — Proclamadores do Reino de Deus, 1993. História oficial que registra a interpretação coletiva apresentada por Russell em 1881, a posterior aplicação do “servo fiel e prudente” ao próprio Russell e a reafirmação da interpretação coletiva em 1927.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. Índice das Publicações da Torre de Vigia — verbete “Escravo fiel e prudente (discreto)”. O índice oficial registra ajustes no entendimento em 1927 e 2013.

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