OS ENSINOS DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ À PROVA DAS ESCRITURAS — PARTE III
Os 144.000, a Grande Multidão e a doutrina das duas classes à prova das Escrituras
Cleriston Bezerra
As Testemunhas de Jeová ensinam que os seguidores de Cristo estão divididos em duas classes: 144.000 “ungidos”, com esperança celestial, e uma grande multidão ou “outras ovelhas”, associada a uma esperança terrestre. Mas essa divisão é realmente estabelecida pelas próprias Escrituras?
Nesta Parte III, examinaremos os textos utilizados para sustentar essa doutrina e perguntaremos se a Bíblia realmente apresenta duas classes permanentes de salvos com esperanças e relações distintas.
Este artigo faz parte da série “Os Ensinos das Testemunhas de Jeová à Prova das Escrituras”. O estudo foi dividido em partes, cada uma dedicada ao exame de um ensino específico à luz das Escrituras.
Introdução — a autoridade de uma mensagem precisa ser provada pelas Escrituras
Ao longo desta investigação, procuramos primeiro estabelecer aquilo que as inspiradas Escrituras ensinam, examinando os textos em seu contexto e permitindo que o testemunho bíblico conduzisse nossa conclusão a respeito do tema apresentado. Somente depois de estabelecido esse testemunho colocamos à prova o ensino das Testemunhas de Jeová, verificando se ele permanece de pé diante daquilo que as próprias Escrituras revelam.
A ordem é fundamental: primeiro as Escrituras estabelecem a verdade; depois, o ensino religioso é examinado à luz dessa verdade. Portanto, não são as Escrituras que estão à prova. Elas são a autoridade pela qual o ensino das Testemunhas de Jeová é julgado.
Isso também exige justiça na apresentação do ensino examinado. Não atribuiremos às Testemunhas de Jeová afirmações que elas não fazem. O ensino atual distingue os 144.000, considerados “ungidos” com esperança celestial, da grande multidão ou “outras ovelhas”, associada a uma esperança terrestre. A questão deste estudo não é a sinceridade de quem aceita essa estrutura, mas se a própria Bíblia estabelece duas classes permanentes de salvos com esperanças e relações distintas.
Mudanças de entendimento, por si mesmas, não provam que uma religião seja falsa, pois intérpretes humanos podem errar e corrigir suas conclusões. O problema se torna mais sério quando uma interpretação humana é apresentada como revelação ou esclarecimento procedente de Deus e depois precisa ser substituída. Deus é perfeito e não mente (Dt 32:4; Tt 1:2; Hb 6:18).
Se a revelação veio verdadeiramente de Deus, o erro não pode estar na revelação. Se houve erro, ele estava no homem que interpretou ou atribuiu a Deus aquilo que Deus não havia revelado.
Por isso, o critério continua sendo o dos bereanos: examinar nas Escrituras se aquilo que é ensinado corresponde ao testemunho inspirado (At 17:11; 1Jo 4:1).
1. Os 144.000 e a grande multidão — duas classes de salvos?
A doutrina das duas classes depende, em grande medida, da identificação dos 144.000 de Apocalipse como um número literal de cristãos destinados ao céu, em contraste com uma grande multidão destinada à Terra. Começaremos, portanto, onde o próprio Apocalipse começa essa descrição.
Apocalipse 7:1–8 — os 144.000 devem ser entendidos literalmente?
“Então ouvi o número dos que foram selados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos de Israel.”
— Apocalipse 7:4, NVI
A estrutura numérica é evidente: doze tribos, com doze mil selados de cada uma, totalizando 144.000. Se o total precisa ser obrigatoriamente literal, surge uma pergunta hermenêutica inevitável: por que os seus componentes não deveriam ser entendidos da mesma maneira, como exatamente doze mil israelitas biológicos de cada tribo mencionada?
A própria lista apresenta características incomuns: Judá aparece primeiro; Dan é omitido; Levi é incluído; José e Manassés aparecem, enquanto Efraim não é nomeado. Não se trata de uma lista genealógica comum das tribos. Além disso, a visão contém quatro anjos, quatro cantos da terra, quatro ventos e um selo na testa. O gênero apocalíptico não torna automaticamente simbólico todo número, mas exige que a literalidade seja demonstrada pelo texto, e não simplesmente pressuposta.
Há ainda uma estrutura literária importante. João primeiro ouve o número dos selados. Em seguida, olha e vê uma grande multidão que ninguém podia contar. Apocalipse utiliza recurso semelhante no capítulo 5: João ouve falar do “Leão da tribo de Judá” e depois vê um Cordeiro que parecia ter sido morto. Não são dois Messias; são duas imagens da mesma realidade.
Os 144.000 que João ouve e a grande multidão que João vê não são apresentados pelas Escrituras como duas classes de salvos com esperanças distintas. A própria estrutura da visão aponta para duas perspectivas simbólicas do povo redimido de Deus: João ouve o número simbólico dos selados e, em seguida, vê a realidade desse povo como uma grande multidão que ninguém podia contar, procedente de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Nada em Apocalipse 7 autoriza dividir os redimidos em uma classe de 144.000 destinada ao céu e outra classe, formada pela grande multidão, destinada à Terra. Essa divisão não é declarada por João; ela é introduzida pela interpretação.
Apocalipse 7:9–17 — onde está a grande multidão?
“Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé, diante do trono e do Cordeiro.”
— Apocalipse 7:9, NVI
A grande multidão aparece “diante do trono e do Cordeiro”. Em Apocalipse 4:2, o trono é explicitamente apresentado no céu, e a mesma cena celestial continua nos capítulos seguintes. Em Apocalipse 7:15, a multidão presta serviço a Deus “dia e noite em seu santuário”; o termo grego é ναός (naós), utilizado em Apocalipse 11:19 para o santuário de Deus nos céus e novamente no cenário celestial de Apocalipse 15.
Isso não significa que toda linguagem visionária deva ser transformada em geografia literal. Mas significa que Apocalipse 7 não pode ser citado como se colocasse claramente a grande multidão na Terra. O texto a apresenta diante do trono, diante do Cordeiro e no santuário de Deus.
A multidão é identificada como aqueles que vieram da grande tribulação e lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. João não a chama de “não ungidos”, “classe terrestre” ou “cristãos fora dos 144.000”. Daniel 12:1 fornece um pano de fundo profético importante: tempo de angústia e livramento do povo de Deus. Daniel não divide esse povo fiel em duas classes de esperança.
Daniel e Apocalipse devem ser lidos em conjunto
Apocalipse não será interpretado isoladamente. Muitas de suas visões retomam e desenvolvem imagens proféticas já apresentadas em Daniel: tronos, tribunal, livros, bestas, santos, reino e tempo de angústia. Sempre que houver conexão textual ou temática demonstrável, Daniel deve ser examinado juntamente com Apocalipse.
Não fazemos isso para impor a Daniel uma interpretação previamente estabelecida, nem para fazer Apocalipse dizer aquilo que desejamos, mas para permitir que as próprias Escrituras esclareçam as Escrituras.
Daniel 7:18 e 7:27 afirma que os santos do Altíssimo recebem o Reino. O texto fala do povo do Altíssimo, sem estabelecer uma elite de 144.000 em contraste com outra classe de salvos.
Apocalipse 14 — os 144.000 com o Cordeiro no monte Sião
Apocalipse 14 apresenta os 144.000 com o Cordeiro no monte Sião, com o nome do Cordeiro e do Pai escrito na testa. Hebreus 12:22–23 emprega Sião em sentido celestial e escatológico ao falar da “Jerusalém celestial” e da assembleia dos primogênitos. O nome na testa também pertence à linguagem simbólica de identidade, pertencimento e fidelidade, em contraste com a marca da besta.
O mesmo capítulo descreve os 144.000 como aqueles que “não se contaminaram com mulheres, pois se conservaram virgens”. Uma leitura rigidamente literal exigiria não apenas exatamente 144.000 pessoas, mas 144.000 homens biologicamente virgens. Isso entra em tensão com o uso bíblico positivo do casamento (Hb 13:4) e mostra que a linguagem descreve fidelidade e pureza por meio de imagens apocalípticas.
Também é significativo que os 144.000 cantem “diante do trono” (Ap 14:3), expressão utilizada para a grande multidão em Apocalipse 7:9. E a característica de seguir o Cordeiro não pertence a uma elite: Jesus afirma que Suas ovelhas ouvem Sua voz e O seguem (Jo 10:27).
Os 144.000 não são apresentados pelas Escrituras como uma classe literal limitada de cristãos que possui uma esperança diferente da grande multidão. O número pertence à linguagem simbólica das visões de Apocalipse, assim como os demais elementos utilizados para descrever o povo selado e fiel ao Cordeiro.
2. João 10:16 — quem são as “outras ovelhas”?
“Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.”
— João 10:16, NVI
O texto não menciona os 144.000, a grande multidão, uma classe celestial ou uma classe terrestre. Jesus fala de ovelhas que não pertenciam àquele aprisco e que seriam trazidas por Ele. O resultado declarado pelo próprio Cristo não é a permanência de dois grupos, mas sua reunião.
O grego distingue αὐλή (aulē), “aprisco” ou recinto, de ποίμνη (poimnē), “rebanho”. As outras ovelhas não eram daquele aprisco, mas seriam conduzidas pelo mesmo Pastor para que houvesse um só rebanho. João 11:51–52 apresenta movimento semelhante ao falar da morte de Cristo para reunir em um só povo os filhos de Deus dispersos. Efésios 2:14–19 descreve judeus e gentios sendo reconciliados em um só corpo.
As “outras ovelhas” de João 10:16 não são apresentadas por Jesus como uma segunda classe de cristãos com uma esperança diferente. Elas representam ovelhas que estavam fora daquele aprisco e que seriam conduzidas por Cristo, ouviriam Sua voz e seriam reunidas com as demais sob um único Pastor. O resultado declarado pelo próprio Cristo é inequívoco: “haverá um só rebanho e um só pastor”.
3. Lucas 12:32 — quem é o “pequeno rebanho”?
“Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino.”
— Lucas 12:32, NVI
O contexto identifica os destinatários como os discípulos de Jesus (Lc 12:22). O termo μικρόν (mikron) significa “pequeno”; o texto não fornece qualquer número. Não menciona 144.000, não contrapõe o pequeno rebanho às outras ovelhas e não estabelece duas esperanças.
Ligar “pequeno rebanho” a 144.000, depois identificar esses 144.000 como classe celestial e utilizar essa construção para interpretar Lucas seria trazer para o texto uma conclusão que ele próprio não fornece. Daniel 7:18,27 já havia apresentado os santos do Altíssimo recebendo o Reino, e Jesus promete o Reino aos Seus discípulos sem criar uma classe numericamente limitada.
O “pequeno rebanho” de Lucas 12:32 não é identificado pelas Escrituras como uma classe de exatamente 144.000 cristãos destinados ao céu. Jesus está encorajando Seus discípulos, então um pequeno grupo, assegurando-lhes que o Pai lhes daria o Reino.
4. Uma só esperança — qual é a esperança bíblica dos salvos?
“Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só.”
— Efésios 4:4, NVI
A unidade da esperança aparece ao lado de um só corpo, um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai. Não é um detalhe periférico; pertence à própria unidade do povo de Cristo.
A esperança cristã está fundamentada na vitória de Cristo sobre a morte e na ressurreição daqueles que Lhe pertencem. Paulo afirma que, na vinda de Cristo, serão vivificados “os que lhe pertencem” (1Co 15:22–23). Em 1 Tessalonicenses 4:16–17, os mortos em Cristo ressuscitam, os salvos vivos são reunidos com eles e, juntos, estarão para sempre com o Senhor.
Romanos 8:16–23 relaciona filiação, herança e a futura libertação da criação. Os filhos são herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, enquanto a própria criação aguarda sua libertação. Daniel 7 apresenta os santos recebendo o Reino. Jesus fala tanto do Reino dos céus quanto de os humildes herdarem a terra (Mt 5:3,5), sem transformar essas promessas em duas classes de cristãos.
A consumação bíblica também impede uma oposição simplista entre “céu” e “Terra”. Apocalipse 21 apresenta novos céus e nova terra e a Nova Jerusalém descendo dos céus, da parte de Deus. O ponto culminante é: “o tabernáculo de Deus está com os homens” (Ap 21:3). Em Apocalipse 22:3–5, os servos de Deus veem Sua face, têm Seu nome na testa e reinam para todo o sempre.
As Escrituras apresentam um único povo redimido em Cristo, chamado por um só Espírito, pertencente a um só corpo e aguardando uma só esperança. A esperança bíblica não precisa ser dividida artificialmente entre duas categorias permanentes de cristãos.
5. A Nova Aliança — com quem ela foi estabelecida?
Jeremias anunciou uma Nova Aliança na qual Deus escreveria Sua lei no coração do Seu povo, seria o Deus deles e perdoaria seus pecados (Jr 31:31–34). A profecia não menciona 144.000 pessoas.
“Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês.”
— Lucas 22:20, NVI
Jesus estabelece a ligação central: a Nova Aliança é fundada em Seu sangue. Hebreus identifica Cristo como “mediador de uma nova aliança” para que os chamados recebam a promessa da herança eterna (Hb 9:15; 12:24) e aplica diretamente Jeremias 31 à obra de Cristo (Hb 8; 10:15–18).
Efésios 2 explica como os gentios, antes afastados das alianças da promessa, foram aproximados pelo sangue de Cristo. Cristo fez dos que estavam separados um, reconciliou ambos com Deus em um corpo e os tornou concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef 2:12–19).
Em nenhum dos textos que instituem, explicam ou aplicam a Nova Aliança encontramos a declaração de que somente 144.000 cristãos participam dela. Essa limitação depende de uma estrutura interpretativa previamente construída e posteriormente aplicada às passagens sobre a Nova Aliança.
6. O sangue de Cristo, a Nova Aliança e a Ceia do Senhor
O sangue de Cristo não apenas estabelece a Nova Aliança; por esse mesmo sangue há redenção e perdão (Ef 1:7; 1Pe 1:18–19). Por isso, separar uma classe de seguidores salvos por esse sangue da aliança que o próprio sangue estabelece exige fundamento textual explícito.
“Não é verdade que o cálice da bênção que abençoamos é uma participação no sangue de Cristo? E que o pão que partimos é uma participação no corpo de Cristo? Por haver um único pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão.”
— 1 Coríntios 10:16–17, NVI
A Ceia, em Paulo, expressa participação em Cristo e unidade do corpo. Quando corrige abusos na congregação, o apóstolo não instrui uma classe de cristãos a apenas observar. Ele ordena: “Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice” (1Co 11:28). O problema tratado era a maneira indigna de participar, não a presença de uma suposta classe terrestre que deveria permanecer sem participar.
Isso não significa participação irreverente ou indiscriminada. Paulo exige autoexame e discernimento. Mas uma coisa é exigir participação consciente e reverente; outra é estabelecer uma classe permanente de verdadeiros seguidores de Cristo que deve estar presente, mas não participar, porque não pertence aos 144.000.
A restrição da participação no pão e no vinho a uma suposta classe de 144.000 depende da mesma estrutura doutrinária que divide os seguidores de Cristo em duas classes. Essa divisão não é estabelecida nas instruções de Jesus ou de Paulo sobre a Ceia do Senhor.
7. Romanos 8 — filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo
“E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.”
— Romanos 8:9, NVI
“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.”
— Romanos 8:14, NVI
“Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo.”
— Romanos 8:17, NVI
A sequência do argumento de Paulo é clara: pertencer a Cristo, possuir Seu Espírito, ser guiado pelo Espírito, ser filho de Deus e ser herdeiro. O capítulo não cria uma terceira categoria composta por pessoas que pertencem verdadeiramente a Cristo, mas permanecem fora dessa filiação.
Gálatas confirma a mesma realidade: “Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 3:26) e “se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3:29). A condição apresentada não é pertencer a uma classe especial, mas pertencer a Cristo.
A divisão dos verdadeiros seguidores de Cristo entre uma pequena classe de filhos e co-herdeiros e outra classe permanente de salvos que pertence a Cristo sem compartilhar dessa filiação e herança não é estabelecida por Romanos 8.
8. Quem são os irmãos de Cristo?
“Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”
— Mateus 12:50, NVI
Jesus define Seus irmãos a partir da relação de discipulado e obediência ao Pai, sem limitar a expressão a 144.000 pessoas. Romanos 8:29 apresenta Cristo como “o primogênito entre muitos irmãos” dentro do mesmo contexto em que todos os guiados pelo Espírito são filhos de Deus.
Hebreus 2:10–11 fala de muitos filhos conduzidos à glória e afirma que Jesus não Se envergonha de chamar de irmãos aqueles que são santificados. A passagem relaciona salvação, filiação, santificação e irmandade com Cristo sem criar uma elite numericamente limitada dentro da comunidade redimida.
A restrição da expressão “irmãos de Cristo” a exatamente 144.000 cristãos não é estabelecida pelos textos que definem quem são Seus irmãos. Essa limitação precisa ser trazida aos textos a partir de uma identificação previamente construída dos 144.000.
9. Filhos, irmãos e membros da família de Deus
Efésios reúne os temas anteriores. Aqueles que estavam longe foram aproximados pelo sangue de Cristo; dos que estavam separados Ele fez um; ambos foram reconciliados em um corpo e se tornaram “membros da família de Deus” (Ef 2:13–19). Em 1 Timóteo 3:15, a igreja é chamada “casa de Deus”.
As imagens não são idênticas em todos os seus detalhes, mas convergem para uma mesma realidade redentora: os que pertencem a Cristo são reunidos no Seu povo. Romanos fala de filhos e herdeiros; Hebreus, de irmãos; Efésios, de um só corpo e da família de Deus.
O testemunho apostólico não estabelece dentro desse povo uma classe permanente de seguidores de Cristo que pertença à família de Deus sem participar da filiação que caracteriza essa família.
10. “Vocês pertencem a Cristo” — a categoria fundamental
Antes de perguntar a qual classe um cristão pertence, as Escrituras apresentam uma pergunta mais fundamental: ele pertence a Cristo? Romanos 8:9 declara que quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a Ele. Gálatas 3:29 afirma que, se somos de Cristo, somos herdeiros segundo a promessa. Em 1 Coríntios 15:23, na vinda do Senhor, ressuscitam “os que lhe pertencem”.
Jesus descreve Suas ovelhas como aquelas que ouvem Sua voz, são conhecidas por Ele, O seguem e recebem vida eterna (Jo 10:27–28). Paulo declara à igreja: “vocês são o corpo de Cristo” (1Co 12:27) e, combatendo divisões humanas, lembra: “vocês são de Cristo” (1Co 3:23).
Quando os escritores inspirados descrevem aqueles que pertencem salvificamente a Cristo, as diferentes imagens — filhos, irmãos, herdeiros, ovelhas e membros do corpo — convergem para a inclusão no Seu povo, e não para a criação de duas classes permanentes de cristãos com relações distintas de filiação, aliança e esperança.
Conclusão geral — o ensino das duas classes à prova das Escrituras
Ao longo desta investigação, procuramos primeiro estabelecer aquilo que as inspiradas Escrituras ensinam, examinando os textos em seu contexto e permitindo que o testemunho bíblico conduzisse nossa conclusão a respeito do tema apresentado. Somente depois de estabelecido esse testemunho colocamos à prova o ensino das Testemunhas de Jeová, verificando se ele permanece de pé diante daquilo que as próprias Escrituras revelam.
A questão central foi se a Bíblia realmente divide os seguidores de Cristo em duas classes permanentes de salvos: uma composta por exatamente 144.000 “ungidos”, com esperança celestial, e outra formada pela grande multidão ou pelas “outras ovelhas”, com esperança terrestre e relação distinta quanto à Nova Aliança, à filiação, à herança e à participação na Ceia do Senhor.
A investigação começou em Apocalipse. João ouve o número simbólico dos selados e depois vê uma multidão incontável de todas as nações. A linguagem dos 144.000 aparece dentro de visões marcadas por símbolos — tribos, selo na testa, Sião, virgindade e seguimento do Cordeiro — e o texto não declara que esse número represente uma classe literal exclusiva de cristãos.
João 10 não estabelece duas classes: as outras ovelhas são trazidas por Cristo para que haja “um só rebanho e um só pastor”. Lucas 12 não identifica o pequeno rebanho com 144.000. Efésios declara “um só corpo” e “uma só esperança”. A Nova Aliança é estabelecida pelo sangue de Cristo e Hebreus O apresenta como Seu Mediador, sem limitar a aliança a 144.000. Na Ceia, Paulo relaciona o único pão à unidade do único corpo e ordena autoexame seguido de participação.
Romanos 8 afirma que quem não tem o Espírito de Cristo não pertence a Ele, que todos os guiados pelo Espírito são filhos de Deus e que, sendo filhos, são herdeiros e co-herdeiros com Cristo. Gálatas confirma que todos são filhos mediante a fé em Cristo e que os que são de Cristo são herdeiros segundo a promessa. Hebreus chama de irmãos de Cristo aqueles que são santificados, e Efésios chama os reconciliados pelo sangue de Cristo de membros da família de Deus.
O testemunho cumulativo forma uma linha coerente: um só Pastor; um só rebanho; um só corpo; um só Espírito; uma só esperança; filhos de Deus; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; irmãos de Cristo; membros da família de Deus.
Para sustentar a estrutura das duas classes, porém, é necessário estabelecer sucessivamente que 144.000 é um número literal, que esse número define uma classe celestial exclusiva, que essa classe corresponde ao pequeno rebanho, que somente ela participa da Nova Aliança e da Ceia e que somente ela é formada por filhos, co-herdeiros e irmãos de Cristo. Ao examinarmos individualmente os textos utilizados para construir essa cadeia, essas equivalências não foram estabelecidas pelas próprias passagens.
Uma interpretação não se torna bíblica simplesmente porque várias conclusões dependem umas das outras. Cada elo da cadeia precisa permanecer de pé diante das Escrituras.
O ensino que divide os seguidores de Cristo em duas classes permanentes de salvos — uma composta por exatamente 144.000 “ungidos” e outra formada pela grande multidão ou pelas “outras ovelhas”, atribuindo-lhes esperanças e relações distintas com a Nova Aliança, a filiação, a herança e a Ceia do Senhor — não permanece de pé diante do testemunho cumulativo das Escrituras.
As Escrituras apresentam um povo redimido por Cristo, reunido sob um só Pastor, formando um só corpo, chamado para uma só esperança, aproximado pelo mesmo sangue, pertencente à família de Deus e aguardando a consumação da mesma obra redentora.
As inspiradas Escrituras não estiveram à prova nesta investigação. Foram elas que estabeleceram o padrão pelo qual o ensino foi examinado. Depois de permitir que Daniel, os ensinos de Cristo, os escritos apostólicos e Apocalipse falassem em seus próprios contextos e conjuntamente, colocamos diante desse testemunho o ensino das Testemunhas de Jeová. O resultado da prova é que a divisão dos seguidores de Cristo em duas classes permanentes de salvos não encontra fundamento suficiente nas próprias Escrituras.
Não são as Escrituras que precisam se ajustar aos ensinos de uma organização religiosa; são os ensinos de qualquer organização religiosa que precisam permanecer de pé diante das Escrituras.
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional (NVI). Biblica.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “Eis a grande multidão!” A Sentinela, 15 de maio de 2001.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “As outras ovelhas e o novo pacto.” A Sentinela, 1.º de fevereiro de 1998.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “A busca de ‘outras ovelhas’.” A Sentinela, 15 de fevereiro de 2003.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. “Uma grande multidão diante do trono de Jeová.” Adore o Único Deus Verdadeiro, cap. 13.
TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. Estudo Perspicaz das Escrituras. Ver os verbetes e referências relacionados a “144.000” e “grande multidão”.

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