domingo, 23 de agosto de 2026

O QUE A BÍBLIA REALMENTE ENSINA SOBRE O DOM DE LÍNGUAS?


 

O QUE A BÍBLIA REALMENTE ENSINA SOBRE O DOM DE LÍNGUAS?

Uma análise bíblica sobre sua natureza, propósito e continuidade

Cleriston Bezerra

Introdução

Poucos assuntos relacionados aos dons espirituais têm provocado tantas interpretações diferentes no meio cristão quanto o dom de línguas. Para alguns, falar em línguas constitui uma experiência indispensável à vida espiritual; para outros, representa uma evidência específica da atuação do Espírito Santo. Diante dessas interpretações, porém, existe uma pergunta que deve anteceder todas as demais: o que as próprias Escrituras ensinam sobre o dom de línguas?

Para responder, não precisamos começar pelas experiências religiosas contemporâneas nem pela opinião de determinado grupo ou tradição. O caminho mais seguro é acompanhar o desenvolvimento do tema dentro da própria Bíblia, permitindo que os textos esclareçam uns aos outros. E essa investigação começa muito antes do Pentecostes.

1. Babel e a diversidade das línguas

Para compreendermos adequadamente o dom de línguas apresentado no Novo Testamento, é importante observar primeiro como a própria Bíblia introduz a diversidade linguística entre os povos. Esse ponto nos conduz a Gênesis 11, muito antes dos acontecimentos registrados no livro de Atos.

A narrativa de Babel começa com uma informação significativa: “No mundo todo havia apenas uma língua, um só modo de falar.” (Gênesis 11:1, NVI)

A humanidade compartilhava, portanto, uma forma comum de comunicação. Entretanto, os homens decidiram estabelecer-se e construir uma cidade e uma torre, declarando: “Venham, vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra.” (Gênesis 11:4, NVI)

O texto revela não apenas um projeto de construção, mas uma intenção: aqueles homens desejavam permanecer reunidos e tornar famoso o próprio nome. É nesse contexto que ocorre a intervenção divina: “Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros.” (Gênesis 11:7, NVI)

O resultado aparece imediatamente: “Assim o SENHOR os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade.” (Gênesis 11:8, NVI)

Existe aqui um elemento importante para nosso estudo. A diversidade das línguas aparece inicialmente nas Escrituras associada à impossibilidade de comunicação entre os homens. Pessoas que anteriormente conseguiam compreender umas às outras passaram a falar de maneira que já não havia entendimento comum. Consequentemente, houve dispersão.

Esse acontecimento não significa que diferentes idiomas sejam posteriormente apresentados pela Bíblia como algo intrinsecamente mau. O ponto é outro: Gênesis 11 estabelece a existência de uma barreira linguística entre os povos, e essa barreira será particularmente significativa quando chegarmos ao Pentecostes.

2. De Babel a Pentecostes

Atos 2 apresenta judeus provenientes de diferentes regiões reunidos em Jerusalém por ocasião do Pentecostes. A diversidade linguística continuava existindo. Deus não fez todos os povos retornarem a uma única língua. Em vez disso, o Espírito Santo realizou algo diferente: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava.” (Atos 2:4, NVI)

Observe cuidadosamente onde Lucas situa a ação sobrenatural: o Espírito capacitava os discípulos a falar. Esse detalhe é fundamental porque nos ajuda a identificar a natureza do milagre antes mesmo de examinarmos a reação da multidão.

Quando o acontecimento chamou a atenção das pessoas, Lucas registra: “Ouvindo-se este som, ajuntou-se uma multidão que ficou perplexa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua.” (Atos 2:6, NVI)

A multidão não ficou admirada simplesmente porque os discípulos produziam sons extraordinários. O espanto estava relacionado ao fato de que aquilo que era falado podia ser reconhecido linguisticamente. Os próprios ouvintes deixam isso ainda mais claro: “Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna?” (Atos 2:8, NVI)

A expressão “língua materna” é extremamente importante. Os ouvintes identificaram aquilo que escutavam como seus próprios idiomas de nascimento. Não disseram que estavam ouvindo uma linguagem celestial desconhecida nem que haviam recebido um dom sobrenatural para transformar sons incompreensíveis em palavras compreensíveis.

Lucas ainda registra: “Nós os ouvimos declarar as maravilhas de Deus em nossa própria língua!” (Atos 2:11, NVI). Temos, portanto, quatro elementos que se complementam: em Atos 2:4, o Espírito capacitou os discípulos a falar; em Atos 2:6, as pessoas os ouviram em sua própria língua; em Atos 2:8, essas línguas foram identificadas como línguas maternas; e, em Atos 2:11, havia conteúdo inteligível — eram proclamadas as maravilhas de Deus.

3. O milagre estava na fala

Às vezes é levantada a possibilidade de que os discípulos estivessem pronunciando uma linguagem desconhecida e que o verdadeiro milagre tivesse acontecido na audição da multidão. Entretanto, essa interpretação encontra uma dificuldade no próprio texto.

Atos 2:4 não afirma que o Espírito capacitou os ouvintes a compreender. Lucas diz que os discípulos “começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava”. A capacitação sobrenatural é atribuída diretamente aos que falavam.

Além disso, quando a multidão descreve o acontecimento, ela identifica aquilo que está ouvindo como sua própria língua materna. Por isso, é mais coerente permitir que a própria narrativa defina o fenômeno: o Espírito Santo concedeu aos discípulos a capacidade sobrenatural de falar outras línguas. Não encontramos em Atos 2 um “dom de ouvido”. Encontramos o dom de línguas.

4. Da compreensão à proclamação de Cristo

Entretanto, identificar quais eram essas línguas ainda não responde à pergunta mais importante: por que o Espírito Santo concedeu essa capacidade? O contexto não permite separar as línguas da missão que estava começando.

Depois que a multidão se reúne, Pedro se levanta e anuncia Jesus Cristo. Ele fala de sua morte, ressurreição e senhorio, convocando seus ouvintes ao arrependimento. O resultado é registrado: “Os que aceitaram a mensagem foram batizados, e naquele dia houve um acréscimo de cerca de três mil pessoas.” (Atos 2:41, NVI)

Pentecostes, portanto, não apresenta o dom de línguas como um fenômeno encerrado em si mesmo. Existe uma sequência: o Espírito capacita; as línguas são faladas; povos diferentes compreendem; as maravilhas de Deus são proclamadas; Cristo é anunciado; pessoas recebem a mensagem.

Em Babel, a diversidade linguística tornou-se uma barreira para a comunicação. Em Pentecostes, Deus não elimina essa diversidade. O Espírito capacita seus servos a atravessá-la. E aquilo que atravessa essa barreira não é uma mensagem qualquer: são as maravilhas de Deus, culminando na proclamação das boas-novas de Jesus Cristo.

5. As línguas depois de Pentecostes: a casa de Cornélio

Depois do acontecimento de Pentecostes, o livro de Atos registra novamente pessoas falando em línguas. Um dos episódios mais importantes ocorre na casa de Cornélio, em Atos 10. Cornélio era um centurião romano, portanto gentio. Por orientação divina, Pedro foi até sua casa e começou a anunciar a mensagem acerca de Jesus Cristo.

Enquanto Pedro ainda pregava, “o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem” (Atos 10:44, NVI). Os cristãos judeus que acompanhavam Pedro ficaram admirados, “pois os ouviam falando em línguas e exaltando a Deus” (Atos 10:46, NVI).

Há novamente uma relação entre línguas e proclamação das grandezas de Deus. Em Pentecostes, os povos declararam que ouviam as maravilhas de Deus; na casa de Cornélio, os presentes estavam falando em línguas e exaltando a Deus. Mas Atos 10 não identifica quais línguas estavam sendo faladas. Por isso, precisamos respeitar o limite do texto.

Não devemos afirmar que Lucas especificou idiomas humanos em Atos 10, porque ele não fez isso. Entretanto, também não devemos concluir que se tratava de uma nova categoria de línguas, diferente daquela apresentada anteriormente, porque o texto igualmente não afirma isso.

É o próprio Pedro quem fornece a ligação entre os acontecimentos. Ao explicar o ocorrido aos irmãos em Jerusalém, declarou: “Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles como sobre nós no princípio.” (Atos 11:15, NVI). A expressão “como sobre nós no princípio” relaciona a experiência dos gentios ao acontecimento anterior. Depois da explicação, os cristãos reconheceram: “Então, Deus concedeu arrependimento para a vida até mesmo aos gentios!” (Atos 11:18, NVI). Mais uma vez, o fenômeno aparece dentro do avanço do evangelho.

6. As línguas em Éfeso

Outro registro explícito encontra-se em Atos 19. Quando Paulo chegou a Éfeso, encontrou alguns discípulos que conheciam apenas o batismo de João. Depois de ouvirem acerca de Jesus e serem batizados, o texto afirma: “Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar.” (Atos 19:6, NVI)

Assim como em Atos 10, Lucas não informa quais línguas foram faladas. Onde a Bíblia fornece detalhes, devemos considerá-los. Onde ela não fornece, devemos evitar preencher o silêncio das Escrituras com nossas próprias conclusões. Atos 19 não afirma que eram línguas angelicais, não afirma que eram uma linguagem particular de oração e também não especifica quais idiomas foram utilizados.

Temos, portanto, três registros importantes: Atos 2 apresenta detalhadamente o fenômeno, com línguas reconhecidas pelos ouvintes como suas línguas maternas; Atos 10 registra gentios falando em línguas e exaltando a Deus, e Pedro compara o acontecimento àquilo que ocorreu “no princípio”; Atos 19 registra discípulos falando em línguas e profetizando, sem especificar quais línguas foram utilizadas. Assim, Atos 2 continua sendo o relato mais detalhado para compreendermos a natureza das línguas.

7. 1 Coríntios 12: diversidade de dons e soberania do Espírito

Quando chegamos à primeira carta aos Coríntios, encontramos Paulo orientando uma igreja sobre o exercício dos dons espirituais. Antes de falar sobre como as línguas deveriam ser utilizadas na congregação, ele estabelece princípios que não podem ser ignorados: “Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo.” (1 Coríntios 12:4, NVI)

Paulo prossegue: “A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum.” (1 Coríntios 12:7, NVI). Os dons não são apresentados como instrumentos destinados simplesmente à satisfação particular de quem os recebe. Existe uma finalidade: o bem comum.

Depois de mencionar diferentes manifestações, incluindo línguas e interpretação, Paulo declara: “Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer.” (1 Coríntios 12:11, NVI). Quem determina a distribuição é o Espírito Santo.

Para explicar essa diversidade, Paulo utiliza a comparação do corpo humano: “Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo.” (1 Coríntios 12:27, NVI). Um corpo funciona justamente porque seus membros não desempenham todos a mesma função.

Paulo então pergunta: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Têm todos o dom de realizar milagres? Têm todos dons de curar? Falam todos em línguas? Todos interpretam?” (1 Coríntios 12:29–30, NVI). A construção conduz à mesma resposta: não. Assim como nem todos são apóstolos, profetas ou mestres, nem todos falam em línguas.

Se o Espírito distribui os dons “como quer” e Paulo pergunta “Falam todos em línguas?”, não parece coerente transformar o falar em línguas em manifestação obrigatória que todo cristão necessariamente deveria apresentar. Tampouco devemos utilizar um único dom como medida de espiritualidade. O corpo de Cristo é formado pela diversidade de seus membros e dons, todos subordinados ao mesmo Espírito e destinados ao bem comum.

8. “Línguas dos homens e dos anjos”

Entre os capítulos 12 e 14 encontra-se o conhecido ensino de Paulo sobre o amor: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine.” (1 Coríntios 13:1, NVI)

A expressão “línguas dos anjos” costuma ser apresentada como evidência de uma linguagem celestial concedida aos cristãos, diferente dos idiomas humanos encontrados em Atos 2. Entretanto, antes de adotarmos essa conclusão, precisamos perguntar se esse é realmente o assunto que Paulo está ensinando.

No versículo seguinte, Paulo fala de conhecer “todos os mistérios e todo o conhecimento” e de possuir fé capaz de mover montanhas (1Co 13:2). Se interpretássemos todas essas expressões como declarações literais daquilo que Paulo possuía, precisaríamos concluir que ele possuía conhecimento absoluto. A linguagem é deliberadamente elevada para demonstrar que, mesmo diante das possibilidades mais extraordinárias, sem amor nada teria valor.

Paulo menciona “línguas dos homens e dos anjos”, mas não afirma que o Espírito Santo concede aos cristãos uma língua dos anjos, nem que ela seria usada para oração particular ou seria necessariamente incompreensível aos seres humanos. Essas conclusões precisariam ser acrescentadas ao texto.

As Escrituras registram anjos comunicando mensagens compreensíveis a seres humanos, como Gabriel a Maria (Lucas 1:26–38), os anjos aos pastores (Lucas 2:8–14) e o anúncio junto ao túmulo (Mateus 28:5–7). Esses textos não definem qual linguagem os anjos utilizam entre si na esfera celestial. Justamente por isso, devemos ter cautela em construir uma doutrina detalhada onde a Bíblia não a desenvolve.

O centro de 1 Coríntios 13 é a supremacia do amor. Atos 2, por sua vez, permanece o relato detalhado do funcionamento do dom. Não parece adequado utilizar uma expressão retórica de um capítulo dedicado ao amor para anular a descrição explícita encontrada no Pentecostes.

9. “Quando vier o que é perfeito” e o “face a face”

Ao tratar da superioridade do amor, Paulo afirma que profecias, línguas e conhecimento possuem caráter temporário, enquanto o amor permanece. Nesse contexto declara: “quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.” (1 Coríntios 13:10, NVI)

A pergunta inevitável é: o que Paulo chama de “perfeito”? O próprio contexto fornece uma indicação importante: “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.” (1 Coríntios 13:12, NVI)

Paulo contrasta o “agora” com o “então”. Agora existe conhecimento parcial; então haverá conhecimento pleno. Agora vemos de maneira obscura; então veremos “face a face”. Por isso, interpretar “o que é perfeito” simplesmente como a conclusão do cânon das Escrituras encontra uma dificuldade no próprio contexto: a conclusão da escrita do Novo Testamento não fez os cristãos passarem a ver “face a face”, nem eliminou todo conhecimento parcial.

A linguagem aponta para uma realidade futura de plenitude. Assim, 1 Coríntios 13:10 não deve ser utilizado isoladamente para determinar que o dom de línguas necessariamente cessaria com a conclusão do cânon bíblico. O próprio contexto aponta para uma consumação ainda maior, descrita por Paulo como o momento em que veremos “face a face”.

10. “Não fala aos homens, mas a Deus”: 1 Coríntios 14:2

Paulo chega ao capítulo 14 tratando diretamente da maneira como os dons deveriam funcionar na reunião da igreja. É nesse contexto que encontramos: “Pois quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus. De fato, ninguém o entende; em espírito fala mistérios.” (1 Coríntios 14:2, NVI)

Se essas palavras forem retiradas do restante do capítulo, pode parecer que Paulo esteja ensinando uma língua dirigida exclusivamente a Deus e impossível de ser compreendida pelos seres humanos. Entretanto, a pergunta fundamental é: por que ninguém o entende? O próprio capítulo fornece elementos para responder.

Existe diferença entre dizer que ninguém presente compreende determinada língua e afirmar que nenhum ser humano é capaz de compreendê-la. Se alguém falar fluentemente em japonês numa congregação em que ninguém conheça japonês, os presentes não compreenderão aquilo que está sendo dito. Isso não transforma o japonês em língua celestial. A dificuldade está na ausência de alguém que compreenda o idioma.

Paulo apresenta um argumento semelhante: “Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido.” (1 Coríntios 14:10, NVI). Em seguida: “Portanto, se não entendo o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim.” (1 Coríntios 14:11, NVI). O significado existe; o problema é “se não entendo o significado”.

11. “Em espírito fala mistérios” e a necessidade de compreensão

A expressão “em espírito fala mistérios” também deve permanecer dentro do contexto. Se uma pessoa comunica uma mensagem em uma língua que ninguém presente conhece, o conteúdo permanece oculto para os ouvintes. Eles não sabem o que está sendo dito; Deus, porém, sabe. Nesse sentido, quem fala uma língua não compreendida pelos presentes não está efetivamente comunicando sua mensagem aos homens, porque eles não conseguem entendê-la.

Poucos versículos depois, Paulo pergunta: “Se não proferirem palavras compreensíveis com a língua, como alguém saberá o que está sendo dito? Vocês estarão simplesmente falando ao ar.” (1 Coríntios 14:9, NVI). A preocupação central é comunicação.

Por isso ele determina: “Por isso, quem fala em língua, ore para que a possa interpretar.” (1 Coríntios 14:13, NVI). Se a finalidade fosse permanecer como comunicação incompreensível exclusivamente entre o indivíduo e Deus, seria difícil explicar a insistência na interpretação quando a língua é exercida na congregação.

A questão não é simplesmente: “Deus compreende?” Certamente Deus compreende. A preocupação de Paulo é: “A igreja compreende?” A interpretação transforma aquilo que não estava sendo compreendido em conteúdo acessível aos demais e, assim, a igreja pode ser edificada.

12. Cinco palavras compreensíveis ou dez mil?

Paulo leva esse princípio a uma comparação impressionante: “Todavia, na igreja prefiro falar cinco palavras compreensíveis para instruir os outros a falar dez mil palavras em uma língua.” (1 Coríntios 14:19, NVI)

A diferença é enorme: cinco palavras compreensíveis e dez mil palavras não compreendidas. Paulo prefere as cinco porque deseja “instruir os outros”. Na reunião da igreja, o valor de uma manifestação não está na quantidade de palavras pronunciadas nem no quanto ela parece extraordinária. A preocupação apostólica é que aquilo que acontece alcance os outros com significado.

Esse princípio está em harmonia com Pentecostes. Em Atos 2, pessoas de diferentes povos não ficaram simplesmente diante de uma manifestação inexplicável. Elas disseram: “Nós os ouvimos declarar as maravilhas de Deus em nossa própria língua!” (Atos 2:11, NVI). Havia manifestação sobrenatural, mas havia também conteúdo compreendido.

13. “Quem fala em língua a si mesmo se edifica”

Outro versículo frequentemente utilizado para defender uma finalidade particular do dom é: “Quem fala em língua a si mesmo se edifica, mas quem profetiza edifica a igreja.” (1 Coríntios 14:4, NVI)

Paulo não termina dizendo simplesmente que a autoedificação deve ser buscada. Ele estabelece um contraste entre aquilo que permanece limitado ao indivíduo e aquilo que alcança a congregação. Poucos versículos depois, afirma: “Assim, visto que estão ansiosos por terem dons espirituais, procurem crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja.” (1 Coríntios 14:12, NVI)

Isso está em harmonia com 1 Coríntios 12:7, onde a manifestação do Espírito é concedida “visando ao bem comum”. Portanto, não parece adequado transformar 1 Coríntios 14:4 em fundamento para fazer da autoedificação a finalidade principal do dom, quando o desenvolvimento do próprio apóstolo conduz repetidamente o leitor para a edificação dos demais.

14. Sem intérprete, permaneça calado

Quando Paulo se aproxima das orientações práticas para a reunião cristã, declara: “Tudo seja feito para a edificação da igreja.” (1 Coríntios 14:26, NVI). Profecia, ensino, línguas, interpretação e demais manifestações deveriam submeter-se a esse princípio.

Por isso Paulo estabelece uma regra objetiva: “Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus.” (1 Coríntios 14:28, NVI)

Paulo não diz: “Se ninguém compreender, continue falando, porque somente Deus precisa entender.” Ele determina: “Se não houver intérprete, fique calado na igreja.” Isso demonstra que a incompreensão não constitui a finalidade desejada para o exercício público do dom.

Ao retornarmos a 1 Coríntios 14:2 depois de ler o capítulo, temos elementos importantes: há diversos idiomas no mundo e nenhum é sem significado; a falta de compreensão torna as pessoas estrangeiras umas para as outras; quem fala deve buscar interpretação; cinco palavras compreensíveis são preferíveis a dez mil não compreendidas; tudo deve contribuir para a edificação; e, sem intérprete, deve haver silêncio.

Diante desse desenvolvimento, “ninguém o entende” não precisa significar que nenhum ser humano no mundo poderia compreender aquela língua. O contexto permite compreender que ninguém naquela situação estava entendendo aquilo que era falado. Uma língua desconhecida pela audiência pode ser incompreensível para aquela audiência sem deixar de possuir significado.

15. O propósito não é a confusão

Paulo encerra suas orientações com um princípio simples: “Mas tudo deve ser feito com decência e ordem.” (1 Coríntios 14:40, NVI). O Espírito que concede os dons é o mesmo Espírito que os distribui visando ao bem comum. O dom não deveria produzir superioridade espiritual, competição ou uma reunião em que ninguém compreendesse ninguém. Seu exercício deveria estar subordinado à compreensão, interpretação, edificação e ordem.

Conclusão Geral — O dom de línguas a serviço das boas-novas de Jesus Cristo

Depois de percorrermos as principais passagens bíblicas relacionadas ao dom de línguas, podemos retornar à pergunta que orientou todo este estudo: qual é a natureza e qual é o propósito dessa manifestação segundo as próprias Escrituras? A resposta não deve começar pelas experiências religiosas posteriores nem pelas tradições denominacionais. Nosso ponto de partida e nosso critério final precisam permanecer no testemunho bíblico.

Em Gênesis 11, a diversidade linguística tornou-se, naquele episódio, uma barreira entre os povos. Séculos depois, Jesus entregou aos seus discípulos uma missão que ultrapassaria fronteiras: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês.” (Mateus 28:19–20, NVI)

Antes de sua ascensão, Jesus voltou a falar dessa missão: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.” (Atos 1:8, NVI). Observe a relação: Espírito Santo, poder, testemunho e expansão até os confins da terra.

Pouco depois dessa promessa, em Atos 2, o Espírito é derramado, os discípulos começam a falar outras línguas e pessoas provenientes de diferentes regiões reconhecem suas próprias línguas maternas. Cristo havia ordenado alcançar todas as nações; havia prometido o poder do Espírito para testemunhar até os confins da terra; e, quando o Espírito é derramado, uma barreira concreta existente entre as nações — a barreira das línguas — é atravessada sobrenaturalmente.

Pentecostes, porém, não termina no fenômeno das línguas. Os presentes ouviram as maravilhas de Deus, e Pedro se levantou para anunciar Jesus Cristo: sua morte, ressurreição e senhorio. As línguas não eram o centro da mensagem. Cristo era. O dom servia à comunicação daquilo que Deus estava realizando e ao avanço do testemunho acerca de Jesus.

Quando chegamos à igreja de Corinto, encontramos outro princípio indispensável. Paulo já havia advertido: “Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo suplico a todos vocês que concordem uns com os outros no que falam, para que não haja divisões entre vocês; antes, que todos estejam unidos num só pensamento e num só parecer.” (1 Coríntios 1:10, NVI)

Aquilo que o Espírito concede à Igreja não deveria transformar-se em instrumento de competição, superioridade espiritual ou divisão. Existe diversidade de dons; a manifestação do Espírito visa ao bem comum; o próprio Espírito distribui os dons como quer; e Paulo pergunta: “Falam todos em línguas?” (1 Coríntios 12:30, NVI). A resposta esperada é negativa.

Paulo ainda coloca algo acima das manifestações extraordinárias: o amor. E, no capítulo 14, sua preocupação é prática: a Igreja precisa ser edificada. Palavras precisam ser compreendidas; quando uma língua não é compreendida, deve haver interpretação; cinco palavras compreensíveis são preferíveis a dez mil que a congregação não compreenda; e, se não houver intérprete, deve haver silêncio.

Depois de todo esse percurso, talvez precisemos reformular a pergunta normalmente feita sobre esse assunto. Em vez de perguntarmos apenas “As pessoas ainda falam em línguas?”, devemos perguntar: “Aquilo que hoje é chamado de dom de línguas corresponde às características e aos princípios apresentados pelas Escrituras?”

A existência contemporânea de determinada experiência, por mais sincera que seja, não pode ser utilizada como prova de sua própria interpretação. A experiência precisa ser examinada pelas Escrituras — e não as Escrituras reinterpretadas para se ajustarem à experiência. O testemunho bíblico oferece critérios claros: propósito, significado, compreensão, interpretação, edificação, amor, ordem e proclamação de Cristo.

Em Babel, as línguas separaram. Em Pentecostes, o Espírito capacitou homens a atravessar a barreira das línguas. Cristo havia ordenado que o evangelho alcançasse todas as nações. O Espírito capacitou seus discípulos para serem testemunhas até os confins da terra. E no centro de tudo não estavam as línguas. Estava Jesus Cristo.

Por isso, a pergunta final deste estudo não é simplesmente “Alguém fala em línguas?”, mas: “Essa manifestação corresponde ao que as Escrituras apresentam, comunica a mensagem de Deus, edifica a Igreja e contribui para a proclamação das boas-novas de Jesus Cristo?” É diante das Escrituras que toda doutrina e toda experiência cristã devem ser examinadas. E é nelas que devemos buscar a resposta.

Referência bíblica

BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional (NVI).