Uma análise bíblico-teológica da criação, da origem do
pecado e da obra redentora de Cristo
“Quem subiu aos céus e desceu? Quem ajuntou nas mãos os ventos? Quem
embrulhou as águas em sua capa? Quem fixou todos os limites da terra? Qual é o
seu nome, e o nome do seu filho? Conte-me, se você sabe!”
Provérbios 30:4 — NVI
INTRODUÇÃO
De onde veio o universo? Quem criou o ser humano? Qual é o propósito
da nossa existência? Se Deus é bom e tudo aquilo que Ele criou era “muito bom”
(Gn 1:31), como o pecado, o sofrimento e a morte entraram no mundo? E, diante
da realidade do pecado, qual foi a resposta de Deus para restaurar a
humanidade?
Essas perguntas atravessam a história do pensamento humano e alcançam
algumas das questões fundamentais da teologia bíblica. As Escrituras não
apresentam a existência como produto de um acontecimento desprovido de
propósito, mas revelam um Deus pessoal, eterno, soberano e inteligente, de cuja
vontade procede toda a realidade criada.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
Gênesis 1:1 — ARA
Essa afirmação estabelece o fundamento da cosmovisão bíblica: Deus
existe antes da criação, distingue-se dela e é a causa última de sua
existência. O universo não é Deus e tampouco existe independentemente dele.
Tudo aquilo que veio à existência depende do poder e da vontade do Criador.
O propósito deste estudo é percorrer a grande linha teológica
apresentada pelas Escrituras: criação, propósito humano, entrada do pecado,
queda, promessa, redenção em Yeshua Hamashia (Jesus Cristo), resposta humana ao
Evangelho e restauração final.
Não estamos, portanto, investigando apenas como a história começou.
Procuramos compreender quem é o Criador, quem somos diante dele, o que
aconteceu com a humanidade e aquilo que Deus realizou para reconciliar consigo
o homem caído.
I — DEUS COMO CRIADOR DO UNIVERSO E DA VIDA
A questão acerca da origem do universo tem ocupado filósofos,
teólogos e cientistas ao longo da história. Na época moderna, diferentes
modelos científicos foram desenvolvidos para investigar aspectos relacionados à
origem e à história do cosmos, da Terra e da vida.
É importante distinguir assuntos que algumas vezes são apresentados
como se constituíssem uma única teoria.
O modelo cosmológico do Big Bang procura explicar o desenvolvimento
e a expansão do universo a partir de um estado inicial extremamente quente e
denso. A evolução biológica, por sua vez, procura explicar a diversificação dos
organismos ao longo das gerações. Já os estudos acerca da origem da vida
investigam outra questão: como teriam surgido os primeiros sistemas vivos.
São assuntos relacionados ao estudo das origens, mas não constituem
uma única teoria.
Também cabe corrigir uma informação da redação anterior deste
artigo: Charles Darwin publicou A Origem das Espécies em 1859, e não em 1959. A
precisão histórica é indispensável quando se pretende realizar uma análise
séria.
A revelação bíblica, entretanto, responde a uma questão ainda mais
fundamental: Qual é a causa última da existência do universo?
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
Gênesis 1:1 — ARA
Deus não aparece como parte do universo nem como alguém que surgiu
juntamente com ele. Antes que existissem céus, Terra ou humanidade, Deus já
existia.
“Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o
exército deles.”
Salmos 33:6 — ARA
A criação, portanto, não é apresentada nas Escrituras como produto
de uma realidade autônoma e independente de Deus. Ela existe porque o Criador
soberanamente quis que existisse.
A Trindade na obra da criação
As Escrituras revelam ainda algo extraordinário: a obra criadora
possui uma dimensão trinitária.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava
sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus
pairava por sobre as águas.”
Gênesis 1:1–2 — ARA
O Novo Testamento revela também a participação do Filho.
“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era
Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por
intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.”
João 1:1–3 — NVI
Essa passagem possui enorme importância cristológica. João não
coloca Yeshua entre as coisas criadas. Pelo contrário, estabelece uma distinção
entre aquele que é a Palavra e todas as coisas que vieram à existência por
intermédio dele.
Paulo confirma essa verdade em Colossenses 1:16, afirmando que todas
as coisas foram criadas por meio de Cristo e para Ele.
Portanto, quando examinamos conjuntamente o testemunho das
Escrituras, encontramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo envolvidos na obra
criadora. O universo não existe independentemente de Deus. Sua origem,
sustentação e finalidade encontram-se no Criador.
Os seis dias da criação
·
Primeiro dia: Deus cria a luz e
estabelece a separação entre luz e trevas (Gn 1:3–5).
·
Segundo dia: Deus estabelece o
firmamento e separa as águas (Gn 1:6–8).
·
Terceiro dia: Deus faz aparecer
a porção seca, estabelece os mares e ordena que a terra produza vegetação
segundo suas espécies (Gn 1:9–13).
·
Quarto dia: Deus estabelece os
luminares relacionados ao governo do dia e da noite e à marcação dos tempos,
dias e anos (Gn 1:14–19).
·
Quinto dia: Deus cria os seres
que povoam as águas e as aves (Gn 1:20–23).
·
Sexto dia: Deus cria os animais
terrestres e, como ponto culminante da criação visível, cria o homem e a mulher
à sua imagem (Gn 1:24–31).
Ao longo da narrativa aparece repetidamente a fórmula “houve tarde e
manhã”, acompanhando a sucessão dos dias.
“Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o
que neles existe, mas no sétimo dia descansou.”
Êxodo 20:11 — NVI
O próprio mandamento estabelece uma correspondência entre os seis
dias da obra criadora e os seis dias de trabalho do homem, seguidos pelo sétimo
dia.
Yôm: dias normais ou longas eras?
A palavra hebraica יוֹם (yôm), traduzida como “dia”, não possui
obrigatoriamente o mesmo sentido em todas as suas ocorrências. Dependendo do
contexto, pode designar o período de luz, um dia normal ou, em determinadas
construções, um período mais abrangente.
Portanto, uma defesa responsável dos dias da criação não deve
depender da afirmação simplista de que yôm sempre significa exatamente vinte e
quatro horas. A verdadeira questão exegética é: Qual sentido o contexto de Gênesis
1 favorece?
No relato encontramos uma sequência de dias numerados, acompanhados
repetidamente pelas expressões relacionadas à tarde e manhã. Além disso, Êxodo
20:8–11 relaciona diretamente a semana humana de trabalho e descanso à semana
da criação.
Por essas razões, dentro da interpretação defendida neste estudo,
entendemos que o contexto favorece a compreensão dos seis dias como dias reais
e sucessivos da obra criadora de Deus.
“Um dia para Deus é como mil anos”
“Para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia.”
2 Pedro 3:8 — NVI
Entretanto, utilizar esse versículo como uma fórmula matemática para
converter os dias de Gênesis em milhares, milhões ou bilhões de anos enfrenta
um sério problema contextual. Pedro não está interpretando Gênesis 1. O
contexto de 2 Pedro 3 trata da aparente demora no cumprimento da promessa
divina.
Observe ainda a construção: “um dia é como mil anos” e “mil anos
como um dia”. Trata-se de uma comparação, não de uma fórmula cronológica.
1 dia = 1.000 anos
6 dias = 6.000 anos
Mesmo se alguém, contrariando o contexto, aplicasse a primeira
equivalência literalmente, o resultado ainda não produziria milhões ou bilhões
de anos. Portanto, 2 Pedro 3:8 não fornece fundamento exegético para
transformar automaticamente os seis dias de Gênesis em eras geológicas.
É importante ainda evitar atribuir indistintamente essa
interpretação a denominações inteiras. Diferentes tradições cristãs possuem
posições diversas acerca da relação entre Gênesis e a cronologia científica.
Nosso argumento deve combater a interpretação, e não construir uma
representação imprecisa daquilo que todos os membros de determinada tradição
supostamente acreditam.
E quanto a Gênesis 2:4?
Gênesis 2:4 utiliza “dia” numa construção mais abrangente ao resumir
a obra criadora. Isso demonstra precisamente que yôm possui flexibilidade
semântica. Entretanto, não demonstra que todas as ocorrências da palavra devam
receber o mesmo significado.
Em Gênesis 2:4 encontramos uma expressão resumitiva. Em Gênesis 1
encontramos dias sucessivamente apresentados dentro de uma estrutura narrativa,
numerados e associados à fórmula “tarde e manhã”. O contexto, portanto,
permanece determinante.
A idade da Terra e a cronologia bíblica
Depois de examinarmos os dias da criação, surge outra questão: É
possível determinar pelas Escrituras aproximadamente quanto tempo transcorreu
desde a criação?
Precisamos ser cuidadosos. A Bíblia não possui um versículo
declarando: “A Terra tem seis mil anos.” A estimativa de uma criação situada na
ordem de milhares de anos resulta de reconstruções cronológicas feitas a partir
das genealogias e de outros dados temporais das Escrituras.
Gênesis 5 apresenta a linhagem de Adão até Noé e registra
repetidamente idades dos patriarcas relacionadas ao nascimento dos descendentes
mencionados. Depois do dilúvio, Gênesis 11 continua a sequência genealógica de
Sem em direção a Abraão.
Quando esses dados são compreendidos como uma cronologia contínua e
associados a outras informações históricas da Bíblia, chega-se a uma história
situada na ordem de milhares de anos. Ao longo da história, diferentes
intérpretes chegaram a cálculos distintos. Um dos mais conhecidos foi o do
arcebispo James Ussher, que situou a criação aproximadamente em 4004 a.C.
Entretanto, não devemos transformar uma reconstrução cronológica em
uma declaração que a própria Bíblia não faz explicitamente. A formulação mais
cuidadosa é: uma leitura dos seis dias como dias normais, associada a uma
interpretação cronologicamente contínua das genealogias de Gênesis 5 e 11,
conduz a uma criação recente, situada na ordem de milhares de anos.
Também devemos distinguir arqueologia de geologia e geocronologia.
Artefatos arqueológicos podem contribuir para o conhecimento da história das
sociedades humanas, mas não constituem, por si mesmos, um método para
determinar a idade do planeta.
A geologia contemporânea convencional atribui à Terra uma idade
aproximada de 4,54 bilhões de anos, utilizando diferentes evidências e métodos
de datação. O fato de este artigo defender uma leitura criacionista recente não
exige que representemos incorretamente a posição científica que estamos
contestando. Uma defesa teológica torna-se mais forte quando apresenta
corretamente a posição contrária antes de criticá-la.
A Palavra soberana do Criador
Durante grande parte da narrativa da criação encontramos
repetidamente a ordem divina: “Haja...” Deus fala, e aquilo que determina
acontece.
“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.”
Gênesis 1:26 — ARA
Aqui a narrativa alcança seu ponto culminante. O homem não aparece
simplesmente como mais uma criatura dentro da sucessão dos seres vivos. Ele
recebe uma posição singular dentro da criação. Foi criado à imagem e semelhança
de Deus.
II — A CRIAÇÃO DO SER HUMANO E SEU PROPÓSITO
“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.”
Gênesis 1:27 — ARA
O ser humano pertence inteiramente à criação e depende de seu
Criador, mas recebe uma condição singular: foi criado à imagem e semelhança de
Deus.
O homem formado do pó da terra
“Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou
nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.”
Gênesis 2:7 — ARA
Duas verdades fundamentais aparecem nessa passagem. Primeiro, o
homem foi formado do pó da terra. Isso estabelece sua condição de criatura. O
homem não é eterno, autossuficiente ou Deus por natureza. Segundo, a vida do
homem procede de Deus.
Assim, encontramos uma extraordinária combinação entre humildade e
dignidade. O homem procede do pó, mas foi criado à imagem de Deus.
Uma atuação direta e pessoal do Criador
Há ainda uma característica particularmente bela na descrição da
formação de Adão. Na criação de diversos elementos encontramos repetidamente a
expressão: “Haja...” Deus ordena, e aquilo que determina vem à existência.
Entretanto, quando a narrativa descreve a criação do primeiro homem,
Gênesis 2:7 apresenta uma ação singular: Deus forma o homem do pó da terra e
sopra em suas narinas o fôlego de vida, fazendo dele um ser vivente.
A linguagem ressalta a atuação direta e pessoal do Criador na
formação de Adão. Essa verdade adquire ainda maior significado quando
relacionada à declaração de Gênesis 1:26. O homem é, portanto, apresentado como
criatura intencionalmente formada por Deus, criada à sua imagem e conforme a
sua semelhança, recebendo uma posição singular dentro da criação.
Imagem e semelhança de Deus
O que significa dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança
de Deus? Certamente essa expressão possui implicações morais, racionais,
relacionais e funcionais. O homem possui consciência moral, capacidade
racional, relacionamento pessoal, criatividade e responsabilidade. Gênesis
relaciona ainda a imagem divina ao exercício de domínio sobre a criação.
Entretanto, dentro da interpretação defendida neste estudo,
entendemos que não existe necessidade de limitar “imagem” e “semelhança”
exclusivamente a características abstratas, excluindo antecipadamente toda
correspondência de forma ou aparência.
“Deus é espírito”
“Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em
espírito e em verdade.”
João 4:24 — ARA
Essa declaração estabelece claramente a natureza espiritual de Deus.
Entretanto, afirmar que Deus é espírito não significa necessariamente concluir que
Ele seja uma realidade impessoal ou que jamais possa revelar-se mediante uma
forma perceptível.
As Escrituras demonstram que a realidade espiritual não é
incompatível com manifestação visível. No batismo de Yeshua, por exemplo, Lucas
relata que o Espírito Santo desceu sobre Ele “em forma corpórea, como pomba”
(Lc 3:22).
Precisamos empregar a terminologia corretamente: o Espírito Santo
não se encarnou como uma pomba. A encarnação, no sentido cristológico,
refere-se ao Filho eterno tornando-se verdadeiramente homem (Jo 1:14). Lucas
descreve uma manifestação do Espírito Santo em forma perceptível.
E quanto à aparência de Deus?
Daniel descreve o Ancião de Dias assentado em seu trono, mencionando
suas vestes e cabelos (Dn 7:9). Ezequiel, em sua visão, fala de uma figura
“semelhante a um homem” assentada sobre o trono (Ez 1:26).
Essas passagens pertencem a contextos visionários e possuem forte
linguagem simbólica. Por isso, não devemos transformar automaticamente cada
detalhe em uma descrição anatômica literal de Deus. Entretanto, também não
devemos ignorar aquilo que os textos apresentam. A glória divina é revelada
mediante uma forma pessoal reconhecível.
Dentro da interpretação adotada neste estudo, entendemos, portanto, que João 4:24 não deve ser utilizado isoladamente como prova de que nenhuma correspondência de aparência possa estar envolvida na expressão “imagem e semelhança”. Deus permanece espírito quanto à sua natureza,
enquanto as Escrituras demonstram que Ele pode revelar-se de maneira
perceptível segundo sua soberana vontade.
Adão e Sete: uma comparação importante
“Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança,
conforme a sua imagem, e lhe chamou Sete.”
Gênesis 5:3 — ARA
A semelhança verbal com Gênesis 1:26 merece atenção. Deus diz: “à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Sete é apresentado: “à sua
semelhança, conforme a sua imagem”.
Sete não era Adão nem possuía a mesma identidade pessoal de seu pai.
Contudo, era verdadeiramente sua imagem e semelhança. Dentro da argumentação
deste estudo, essa comparação demonstra que os termos não precisam ser
reduzidos exclusivamente a qualidades morais abstratas.
Entretanto, uma distinção fundamental permanece: o homem jamais se
torna Deus por ser sua imagem.
Semelhança não significa igualdade de essência
Deus é eterno. O homem teve princípio.
Deus é Criador. O homem é criatura.
Deus possui existência em si mesmo. O homem recebe sua
existência.
Portanto, imagem não significa identidade; semelhança não significa
igualdade de essência. A criatura pode refletir verdadeiramente aspectos
daquele que a criou sem deixar de ser criatura.
A criação da mulher
A dignidade da imagem divina não pertence exclusivamente ao homem.
Gênesis 1:27 afirma que Deus criou homem e mulher à sua imagem.
“Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe
seja idônea.”
Gênesis 2:18 — ARA
Homem e mulher possuem distinção sexual, mas compartilham a mesma dignidade fundamental de criaturas humanas feitas à imagem de Deus.
O propósito original do homem
Viver para a glória de Deus
Isaías 43:7 fala daqueles que Deus criou para sua glória. A
finalidade última da existência humana não se encontra no próprio homem. Fomos
criados para a glória de Deus.
Viver em comunhão com o Criador
O homem não foi criado simplesmente para administrar um planeta. Foi
criado para viver diante de Deus. Por isso, a maior tragédia da queda não será
apenas a perda do jardim, mas a ruptura da comunhão entre a criatura e o
Criador.
Multiplicar a humanidade
“Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra...”
Gênesis 1:28 — ARA
Antes da queda, Adão e Eva foram criados sem a corrupção moral que
posteriormente atingiria a humanidade. A ordem para multiplicarem-se apontava
para a expansão da humanidade composta de portadores da imagem de Deus, vivendo
sob sua autoridade e bênção.
Exercer domínio responsável
Imediatamente depois da referência à imagem de Deus encontramos a
ordem para que o homem exerça domínio sobre a criação. Essa autoridade não
significa propriedade absoluta. Deus é o proprietário; o homem é administrador.
Cultivar e guardar
“Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden
para o cultivar e o guardar.”
Gênesis 2:15 — ARA
O trabalho, portanto, existia antes do pecado. A queda tornaria o
trabalho penoso, mas cultivar, administrar, desenvolver e cuidar pertenciam à
vocação humana original.
Da imagem criada à imagem restaurada
O pecado afetará profundamente a humanidade, mas não terá a palavra
final. Colossenses 3:10 fala do novo homem sendo renovado segundo a imagem
daquele que o criou.
Criação: o homem é feito à imagem de Deus.
Queda: o pecado corrompe profundamente sua condição.
Redenção: em Cristo começa sua restauração.
Glorificação: aquilo que Deus iniciou alcançará sua plenitude.
“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.”
Gênesis 1:31 — ARA
O mal moral não é apresentado como elemento original da humanidade
criada por Deus. Então surge a pergunta: Se Deus é bom e sua criação era muito
boa, como o mal entrou no mundo?
III — A ORIGEM DO MAL, A REBELIÃO DE SATANÁS E A QUEDA DO
HOMEM
As Escrituras não apresentam Deus como autor moral do pecado. Tiago
declara que Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta (Tg 1:13). O
mal moral manifesta-se quando a criatura se rebela contra a vontade santa do
Criador.
Hêlêl — Isaías 14:12
“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste
lançado por terra, tu que debilitavas as nações!”
Isaías 14:12 — ARA
No hebraico encontramos a expressão הֵילֵל בֶּן־שָׁחַר (hêlêl
ben-sháḥar), tradicionalmente relacionada à ideia de “estrela da manhã, filho
da alva”. É nesse contexto que encontramos a conhecida palavra Lúcifer.
“Lúcifer” não aparece como nome próprio no texto hebraico. A
tradição latina empregou lucifer, expressão associada à estrela da manhã.
Posteriormente, em razão da interpretação cristã que relacionou Isaías 14 à
queda de Satanás, o termo passou a ser utilizado tradicionalmente como nome do
adversário antes de sua queda.
O contexto: o rei da Babilônia
Isaías 14:4 apresenta o discurso como um motejo contra o rei da
Babilônia. Não devemos apagar esse contexto histórico.
“Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de
Deus exaltarei o meu trono [...] subirei acima das mais altas nuvens e serei
semelhante ao Altíssimo.”
Isaías 14:13–14 — ARA
Aqui aparece um princípio fundamental: a criatura deseja elevar-se
acima da posição que Deus lhe concedeu. Dentro da interpretação defendida neste
estudo, embora o referente histórico imediato seja o rei da Babilônia, sua
arrogância retrata um padrão de rebelião que encontra correspondência na
oposição espiritual de Satanás contra Deus. Assim, preservamos simultaneamente
o contexto histórico e a aplicação teológica.
O querubim de Ezequiel 28
Ezequiel 28 trata inicialmente do governante de Tiro e denuncia sua
arrogância. Posteriormente, na lamentação sobre o rei de Tiro, aparece uma
linguagem extraordinária: são mencionados o Éden, o querubim da guarda e uma
criatura originalmente íntegra na qual posteriormente foi encontrada iniquidade
(Ez 28:13–15).
Novamente precisamos respeitar o contexto histórico. O texto não
declara simplesmente: “Este personagem é Satanás.” Entretanto, dentro da
interpretação adotada neste estudo, a linguagem permite compreender, por trás
da arrogância do governante terreno, uma realidade espiritual associada à
rebelião do adversário.
Como surgiu a iniquidade?
“Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado
até que se achou iniquidade em ti.”
Ezequiel 28:15 — ARA
A resposta não exige transformar Deus no autor do pecado. Existe
diferença entre criar uma criatura dotada de capacidade moral e causar sua
decisão pecaminosa.
Dentro da interpretação que relaciona Ezequiel 28 à rebelião
espiritual, o versículo 17 apresenta elementos importantes: orgulho,
autoexaltação e corrupção daquilo que originalmente havia sido recebido do
Criador. O pecado não precisa ser entendido como uma substância criada por
Deus. O mal moral manifesta-se na rebelião da criatura contra o Criador.
Satanás e a rebelião celestial
Apocalipse 12 apresenta uma passagem na qual a identidade do
adversário é explícita. João descreve uma batalha celestial envolvendo Miguel e
seus anjos contra o dragão e seus anjos (Ap 12:7).
“...a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás...”
Apocalipse 12:9 — ARA
Aqui encontramos: o dragão → a antiga serpente → o Diabo → Satanás.
Isso estabelece uma importante ligação teológica com Gênesis.
Apocalipse 12:4 também fala da terça parte das estrelas do céu sendo
arrastada pela cauda do dragão. Dentro da interpretação adotada neste estudo,
essa imagem é relacionada aos seres angelicais associados à rebelião de
Satanás. Entretanto, como Apocalipse utiliza linguagem intensamente simbólica,
devemos evitar transformar cada elemento da visão automaticamente em descrição
cronológica literal.
Por que Deus não destruiu Satanás imediatamente?
Se Deus possui poder absoluto, por que não destruiu Satanás
imediatamente? As Escrituras não apresentam uma explicação completa de todos os
motivos pelos quais Deus permitiu temporariamente a atuação do adversário. Por
isso, precisamos distinguir revelação explícita de reflexão teológica.
Uma verdade, entretanto, é inequívoca: a existência temporária de
Satanás não significa incapacidade da parte de Deus. Satanás continua sendo
criatura. Deus continua sendo soberano. E o destino final do adversário
encontra-se revelado em Apocalipse 20:10.
Podemos considerar teologicamente que Deus permite temporariamente a
manifestação da rebelião dentro de seu propósito soberano, sem jamais perder o
controle da história. As consequências da independência da criatura em relação
ao governo divino tornam-se igualmente manifestas. Mas essa explicação deve ser
reconhecida como reflexão teológica, e não apresentada como se houvesse um
versículo afirmando detalhadamente todos os motivos de Deus.
A rebelião chega à experiência humana
“É assim que Deus disse...?”
Gênesis 3:1 — ARA
Observe a estratégia. Primeiro: questiona-se a Palavra. Depois:
nega-se a Palavra. Finalmente: oferece-se à criatura uma pretensão de autonomia
diante do Criador.
“É certo que não morrereis.”
Gênesis 3:4 — ARA
A serpente apresenta ainda a possibilidade de serem “como Deus” (Gn
3:5). A criatura é seduzida pela possibilidade de ultrapassar os limites
estabelecidos pelo Criador.
A queda do homem
Adão e Eva possuíam liberdade, mas não soberania absoluta. Deus
havia estabelecido um limite moral em Gênesis 2:16–17. Quando transgrediram a
ordem, o problema não estava simplesmente no ato físico de comer determinado
fruto. O ato exterior manifestava uma decisão interior: a criatura colocou sua
própria escolha acima da Palavra do Criador.
As consequências imediatas
·
vergonha;
·
medo;
·
tentativa de esconder-se;
·
transferência de
responsabilidade;
·
ruptura dos relacionamentos;
·
separação.
A comunhão dá lugar ao medo. A transparência dá lugar à vergonha. A
responsabilidade dá lugar à acusação. O pecado revela imediatamente seu caráter
destrutivo.
O pecado e a morte
“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e
pelo pecado, a morte...”
Romanos 5:12 — ARA
A queda possui consequências para toda a humanidade. O homem que
havia sido criado para viver diante de Deus agora necessita ser resgatado. Mas
justamente no capítulo da queda aparece uma das declarações mais importantes da
história bíblica.
A primeira promessa de redenção
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o
seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”
Gênesis 3:15 — ARA
Na tradição cristã, essa passagem é frequentemente chamada de
protoevangelho, a primeira antecipação da boa notícia da redenção. O pecado
entrou. A comunhão foi rompida. A morte tornou-se realidade. Entretanto, a
serpente não teria a palavra final. A história bíblica passa a desenvolver
progressivamente a esperança de um Redentor.
IV — A MISERICÓRDIA DE DEUS E A OBRA REDENTORA DE YESHUA
HAMASHIA (JESUS CRISTO)
A queda não anulou a misericórdia de Deus nem frustrou seu propósito
soberano.
“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos,
porque as suas misericórdias não têm fim.”
Lamentações 3:22 — ARA
A misericórdia divina não significa que Deus considere o pecado
irrelevante. Na obra de Cristo encontramos justiça e graça, santidade e amor.
O plano redentor não foi uma improvisação
Efésios 1:4 fala do propósito de Deus em Cristo antes da fundação do
mundo, enquanto 1 Pedro 1:20 apresenta Cristo como conhecido antes da fundação
do mundo e posteriormente manifestado.
A cruz não foi uma tentativa de Deus de reparar um plano que havia
fracassado. A redenção em Cristo pertence ao propósito soberano de Deus e foi
progressivamente revelada ao longo da história bíblica.
O Verbo se fez carne
“No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era
Deus.”
João 1:1 — NVI
“Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós.”
João 1:14 — NVI
Yeshua Hamashia não começou a existir quando nasceu em Belém. O
Filho já existia antes de assumir a natureza humana. Aquele por intermédio de
quem todas as coisas foram criadas entrou na própria criação.
O Filho não deixou de ser Deus para tornar-se homem. Na encarnação,
aquele que possui natureza divina assumiu verdadeira natureza humana.
Verdadeiramente humano e sem pecado
A humanidade de Cristo não foi mera aparência. Ele nasceu, cresceu,
sentiu fome, sede e cansaço, sofreu e verdadeiramente morreu. Entretanto, Pedro
afirma que Ele não cometeu pecado (1Pe 2:22).
Yeshua não morreu por culpa própria. Ele pôde oferecer-se em favor
dos pecadores porque não estava debaixo de condenação decorrente de pecado
pessoal.
O primeiro Adão e o último Adão
“O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão,
porém, é espírito vivificante.”
1 Coríntios 15:45 — ARA
O primeiro Adão recebeu um mandamento e desobedeceu.
Cristo permaneceu obediente.
Por Adão o pecado entrou na experiência humana.
Por Cristo Deus providenciou o caminho da
reconciliação.
Por Adão veio condenação.
Em Cristo encontramos justificação.
“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram
pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão
justos.”
Romanos 5:19 — ARA
A cruz e o problema do pecado
Por que Yeshua precisava morrer? Porque o problema humano não
poderia ser resolvido simplesmente por educação, desenvolvimento intelectual ou
esforço moral.
“Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus.”
Romanos 3:23 — NVI
Isaías havia anunciado o sofrimento substitutivo daquele que seria
ferido por causa das transgressões de outros (Is 53:5).
“...carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos
pecados...”
1 Pedro 2:24 — ARA
Yeshua, sendo inocente, entrega sua vida em favor dos culpados.
O precioso sangue de Cristo
“...mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem
mácula, o sangue de Cristo.”
1 Pedro 1:19 — ARA
O pecador não consegue comprar sua redenção. O preço não foi prata.
Não foi ouro. Não foram méritos religiosos. Foi o precioso sangue de Cristo.
Por isso, a salvação não pode ser apresentada como conquista humana.
“Deus amou o mundo”
“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para
que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.”
João 3:16 — NVI
Observe: Deus amou — e Deus deu. O amor divino manifesta-se em ação
redentora. O Pai envia o Filho, e o Filho voluntariamente entrega sua vida. A
cruz revela simultaneamente a gravidade do pecado e a grandeza do amor de Deus.
Justificação
“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de
nosso Senhor Jesus Cristo.”
Romanos 5:1 — ARA
Nossa esperança não se encontra na afirmação “Eu nunca pequei” nem
em “Minhas boas obras são suficientes”. Nossa esperança encontra-se em Cristo.
Reconciliação
A palavra reconciliação é especialmente importante. No Éden, depois
do pecado, Adão escondeu-se. O medo substituiu a comunhão. Agora Paulo declara
que, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de
seu Filho (Rm 5:10).
O problema iniciado em Gênesis não era apenas jurídico. Era também
relacional. Em Cristo, Deus providencia o caminho da reconciliação.
A salvação é pela graça
“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé [...] não por
obras, para que ninguém se glorie.”
Efésios 2:8–9 — NVI
Isso não significa que boas obras sejam irrelevantes. Efésios 2:10
afirma que fomos criados em Cristo para boas obras. A ordem, entretanto,
precisa permanecer correta: as boas obras não compram a salvação; elas devem
surgir como fruto de uma vida alcançada e transformada pela graça.
A cruz não é o fim da história
Yeshua morreu. Foi sepultado. Mas o Evangelho não termina diante de
um túmulo fechado. Paulo resume a mensagem apostólica afirmando que Cristo
morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia (1Co
15:3–4).
“E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé...”
1 Coríntios 15:17 — ARA
Yeshua foi crucificado.
Yeshua morreu.
Yeshua foi sepultado.
E Yeshua ressuscitou dentre os mortos.
Vitória sobre a morte e o adversário
Hebreus 2:14–15 relaciona a obra de Cristo à derrota daquele que tem
o poder da morte, o Diabo, e à libertação daqueles que viviam escravizados pelo
medo da morte.
Agora podemos retornar a Gênesis 3:15. A serpente introduziu a
mentira. O homem caiu. A morte entrou na experiência humana. Mas Deus havia
prometido que o descendente da mulher feriria a cabeça da serpente.
Satanás não vencerá.
O pecado não vencerá.
A morte não vencerá.
Da redenção à restauração
Colossenses 3:10 fala do novo homem sendo renovado segundo a imagem
daquele que o criou. Assim, em Gênesis, o homem é criado à imagem de Deus; na
queda, o pecado corrompe profundamente sua condição; em Cristo, começa sua
restauração.
A redenção não significa apenas escapar da condenação. Deus salva
para reconciliar, transformar e restaurar.
V — A RESPOSTA HUMANA AO EVANGELHO: ARREPENDIMENTO, FÉ E
NOVA VIDA EM CRISTO
Depois de tudo o que examinamos, a mensagem alcança pessoalmente
cada ser humano. Deus criou. O homem pecou. Deus prometeu o Redentor. Yeshua
veio, morreu pelos pecadores e ressuscitou. Diante disso: E agora, o que devo
fazer?
A salvação é pela graça
O primeiro ponto precisa ficar absolutamente claro: o ser humano não
pode salvar a si mesmo. A salvação não pode ser comprada. Não pode ser
conquistada por boas obras. Não é recompensa por religiosidade. O preço da
redenção já foi pago por Yeshua.
A salvação é iniciativa da graça de Deus e está fundamentada na obra
de Cristo, não nos méritos do pecador. Mas isso não significa que o homem possa
permanecer indiferente diante do Evangelho.
Arrependam-se e creiam
“O tempo é chegado [...] O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se
e creiam nas boas-novas!”
Marcos 1:15 — NVI
Encontramos dois elementos fundamentais: arrependimento e fé.
Arrependimento
No Novo Testamento, um dos principais termos relacionados ao
arrependimento é o grego μετάνοια (metánoia). O conceito envolve mudança de
mente e direção diante de Deus.
Arrependimento não é simplesmente lamentar as consequências do
pecado. O verdadeiro arrependimento reconhece: “Pequei contra Deus. Meu caminho
está errado. Preciso voltar-me para Ele.”
Fé
Crer em Yeshua não significa apenas admitir intelectualmente que Ele
existiu. Tiago lembra que até os demônios creem e tremem (Tg 2:19). A fé
salvadora abandona a confiança no próprio mérito e volta-se para Cristo.
Não posso salvar a mim mesmo.
Minhas obras não podem apagar minha culpa.
Preciso da graça de Deus.
Minha esperança está em Cristo.
“Que devo fazer para ser salvo?”
“Senhores, que devo fazer para ser salvo?”
Atos 16:30 — NVI
“Creia no Senhor Jesus...”
Atos 16:31 — NVI
No Pentecostes, os ouvintes de Pedro também perguntaram: “Irmãos,
que faremos?” Pedro respondeu: “Arrependei-vos...” (At 2:37–38). O Evangelho,
portanto, não é apenas informação para ser analisada. Existe um chamado.
Confessar Yeshua como Senhor
Romanos 10:9 relaciona a salvação à confissão de Jesus como Senhor e
à fé em sua ressurreição. Confessar Yeshua como Senhor não significa
simplesmente pronunciar uma frase. É reconhecer sua autoridade.
O pecador que anteriormente desejava conduzir sua existência
independentemente do Criador é chamado a reconhecer o senhorio de Cristo.
Graça divina e responsabilidade humana
Precisamos manter um equilíbrio importante. Seria um erro afirmar
que o homem salva a si mesmo por meio de sua decisão. A decisão humana não é o
preço da salvação. O preço já foi pago por Cristo.
Por outro lado, seria igualmente inadequado concluir que, por a
salvação ser pela graça, a resposta humana não importa. As Escrituras chamam:
arrependa-se; creia; venha a Cristo; siga-o.
“Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da
vida.”
Apocalipse 22:17 — NVI
Assim, a resposta humana não constitui mérito capaz de comprar a
salvação; ela é a resposta do pecador ao chamado do Evangelho e à graça que lhe
é oferecida em Cristo.
E quanto ao livre-arbítrio?
O texto original utilizava Jeremias 21:8 — o caminho da vida e o
caminho da morte — como argumento relacionado à liberdade humana. Entretanto,
Jeremias 21 possui um contexto histórico específico: o julgamento de Jerusalém
diante da invasão babilônica.
Para tratar diretamente do chamado do Evangelho, textos como Marcos
1:15, João 3:16, Atos 16:31 e Apocalipse 22:17 fornecem fundamento mais direto.
Isso não elimina a responsabilidade humana. Pelo contrário, torna o argumento
exegeticamente mais preciso.
A verdadeira conversão produz mudança
Ser salvo pela graça não significa receber autorização para
permanecer deliberadamente em rebelião.
“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça
mais abundante?”
Romanos 6:1 — ARA
“De modo nenhum!”
Romanos 6:2 — ARA
A graça que perdoa também transforma.
“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura...”
2 Coríntios 5:17 — ARA
Isso não significa perfeição instantânea. O cristão ainda enfrenta
tentações e precisa crescer em santificação. Entretanto, existe uma mudança
fundamental: o pecado já não deve ser tratado como senhor legítimo de sua vida.
Boas obras: causa ou consequência?
As boas obras não são a causa da salvação. Devem ser consequência de
uma vida transformada pela graça. A ordem bíblica é: graça → salvação → nova
vida → boas obras. E não: boas obras → mérito → salvação.
Seguir Yeshua
“Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome
diariamente a sua cruz e siga-me.”
Lucas 9:23 — NVI
A conversão envolve mudança de direção. A pessoa que antes
reivindicava autonomia sobre sua existência passa a reconhecer: Yeshua é
Senhor. Isso alcança nossos valores, escolhas, relacionamentos, prioridades e
caráter.
Santificação
“Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação...”
1 Tessalonicenses 4:3 — ARA
Santificação não significa perfeição absoluta instantânea. Significa
uma vida progressivamente transformada pela atuação de Deus, na qual o crente é
chamado a crescer em obediência. A redenção nos conduz novamente ao propósito
da criação.
Perseverar na fé
A vida cristã não termina no momento inicial da conversão. Ela
começa ali. O cristão é chamado a permanecer em Cristo, crescer no conhecimento
da Palavra, viver em comunhão com Deus e perseverar na fé.
“Estou convencido de que aquele que começou boa obra em vocês, vai
completá-la até o dia de Cristo Jesus.”
Filipenses 1:6 — NVI
E AGORA, O QUE VOCÊ FARÁ?
Você viu o testemunho das Escrituras acerca do Criador. Viu que o
homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Viu a realidade da rebelião e
as consequências do pecado. Viu a promessa feita ainda no Éden. Viu que o Filho
entrou na história humana.
Yeshua viveu sem pecado.
Morreu pelos pecadores.
Derramou seu precioso sangue.
Foi sepultado.
E ressuscitou dentre os mortos.
A salvação não está à venda. Você não consegue comprá-la. Não
consegue conquistá-la acumulando méritos. Ela é oferecida pela graça de Deus.
Arrependa-se.
Creia em Yeshua Hamashia (Jesus Cristo).
Confesse-o como Senhor.
Abandone o caminho da rebelião.
Receba pela fé a graça que você jamais poderia
comprar.
E siga aquele que entregou sua vida para reconciliar
pecadores com Deus.
Não estamos falando simplesmente da escolha entre pertencer ou não a
determinada organização religiosa. Estamos falando de reconciliação com o
Criador.
“Qual será a sua resposta ao chamado de Deus?”
CONCLUSÃO — DA CRIAÇÃO À NOVA CRIAÇÃO
Começamos este estudo perguntando: Quem criou o universo e o homem?
As Escrituras responderam: Deus.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
Gênesis 1:1 — ARA
Perguntamos: Para que o homem foi criado? Descobrimos que Deus o
criou à sua imagem e semelhança, concedendo-lhe dignidade, responsabilidade e
propósito.
Depois perguntamos: Se Deus é bom e tudo aquilo que criou era muito
bom, como o mal entrou no mundo? Encontramos a rebelião da criatura contra o
Criador. A arrogância substituiu a submissão. A mentira procurou substituir a
Palavra. No Éden, Adão e Eva escolheram a desobediência.
O pecado trouxe vergonha, medo, ruptura, sofrimento e morte. Mas a
história não terminou no Éden.
A promessa permaneceu
“Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”
Gênesis 3:15 — ARA
Uma promessa atravessaria a história. O Redentor viria. Na plenitude
do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher (Gl 4:4). O Filho eterno
assumiu verdadeira natureza humana. Aquele por intermédio de quem todas as
coisas foram criadas entrou na criação. O inocente tomou sobre si aquilo que
pertencia aos culpados. O Cordeiro derramou seu sangue. Cristo morreu, foi
sepultado e ressuscitou.
Do primeiro Adão ao último Adão
O primeiro Adão desobedeceu. O último Adão foi obediente. Por meio
do primeiro, o pecado entrou na experiência humana. Em Cristo encontramos a
resposta redentora de Deus.
Criação.
Rebelião.
Queda.
Promessa.
Redenção.
Restauração.
Da primeira criação à nova criação
Existe uma extraordinária correspondência entre o início e o final
das Escrituras.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
Gênesis 1:1 — ARA
“Vi novo céu e nova terra...”
Apocalipse 21:1 — ARA
Em Gênesis encontramos a criação. Em Apocalipse encontramos a nova
criação. Em Gênesis, o pecado entra na experiência humana. Na consumação, a
morte será definitivamente vencida.
“E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não
existirá...”
Apocalipse 21:4 — ARA
A história bíblica caminha, portanto, do Éden perdido à criação
restaurada.
Tudo converge em Cristo
No centro dessa história encontra-se Yeshua Hamashia (Jesus Cristo).
Ele é aquele por intermédio de quem todas as coisas foram criadas. É aquele que
entrou na história humana. É aquele que morreu pelos pecadores. É aquele que
ressuscitou. É aquele em quem encontramos reconciliação com Deus. E é aquele
por meio de quem a história caminha para sua consumação.
“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A
ele, pois, a glória eternamente. Amém!”
Romanos 11:36 — ARA
Assim, nossa investigação termina onde toda a criação encontra sua
finalidade: na glória de Deus.
O Deus que criou é o Deus que redime. O Deus santo é também
misericordioso. O Deus que julga o pecado é aquele que providenciou o Redentor.
E aquele que começou sua obra cumprirá seu propósito.
Por isso, a mensagem deste estudo não é simplesmente “Descubra como
o mundo começou”. Ela é muito maior:
Conheça o seu Criador.
Reconheça a realidade do pecado.
Contemple a obra do Redentor.
Arrependa-se e creia no Evangelho.
Siga Yeshua Hamashia.
E viva para a glória daquele que criou todas as
coisas.
E permanece diante de cada leitor a pergunta final: Qual será a sua
resposta ao chamado de Deus?
Por Cleriston
Bezerra
REFERÊNCIAS BÍBLICAS E BIBLIOGRÁFICAS
· BÍBLIA. A Bíblia da Mulher: leitura, devocional, estudo. Texto bíblico: Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. 2.216 p
· BÍBLIA. Bíblia Leitura Perfeita: Letra Grande. Texto bíblico: Nova Versão Internacional (NVI). 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018. 1.184 p.
· BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament: with an Appendix Containing the Biblical Aramaic. Oxford: Clarendon Press, 1907.
· KÖHLER, Ludwig; BAUMGARTNER, Walter; STAMM, Johann Jakob. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT). Tradução e edição sob supervisão de M. E. J. Richardson. 5 v. Leiden: E. J. Brill, 1994–2000.
· LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert; JONES, Henry Stuart. A Greek-English Lexicon. 9. ed. Oxford: Clarendon Press, 1940.
· NESTLE, Eberhard; NESTLE, Erwin; ALAND, Barbara; ALAND, Kurt et al. (eds.). Novum Testamentum Graece. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
· ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. rev., preparada por Adrian Schenker. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.
NOTA SOBRE AS TRADUÇÕES BÍBLICAS
As citações das Escrituras empregadas neste
artigo foram extraídas principalmente da Almeida Revista e Atualizada (ARA), 2ª
edição, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, e da Nova Versão
Internacional (NVI), conforme os exemplares relacionados nas referências
bibliográficas acima.
